Patrono da pátria brasileira também é reconhecido como geólogo e naturalista

José Bonifácio Andrada teve participação na construção do Estado brasileiro, mas também desenvolveu pesquisas nos campos da mineralogia e do meio ambiente

Busto de José Bonifácio exposto na Biblioteca Latino-americana Victor Civita (Crédito: Evair Leandro)

Petalita, Espodumênio, Escapolita e Criolita. Esses são minérios descobertos por José Bonifácio de Andrada e Silva. O patrono do Estado brasileiro tinha formação em Filosofia e Direito pela Universidade de Coimbra e estudou mineralogia pela Universidade Freiberg de Minas e Tecnologias.

Na semana da pátria, em que o Brasil comemora o ato que oficializou a independência de Portugal, uma das figuras lembradas é a de José Bonifácio (1763-1838) pelo seu papel decisivo neste processo, como argumenta o professor José Augusto Pádua, do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A grande questão era conquistar a unidade das elites regionais brasileiras em torno de um projeto de ruptura com Portugal. Naquele contexto muito conservador, de uma sociedade de Antigo Regime nos trópicos, a presença do Príncipe Pedro, de uma dinastia europeia legítima, ajudava muito na obtenção do apoio das elites regionais à criação de uma monarquia independente. Mas a presença de Bonifácio foi igualmente importante. Ele era respeitado como um velho sábio, um professor da Universidade de Coimbra que havia alcançado a posição de secretário perpétuo da Academia das Ciências de Lisboa. Sua presença representava um equilíbrio e ilustração na relação com o Príncipe jovem e impetuoso”, afirma Pádua.

Foi essa erudição que levou Bonifácio a ser convidado para ser um dos principais ministros de D. Pedro. “Bonifácio tomou algumas decisões políticas e militares que foram fundamentais na implementação da independência. Mas, para além desse momento inicial, não se pode dizer que tenha sido um político bem sucedido. Ironicamente, o seu próprio brilho intelectual, que gerou respeito em uma primeira ocasião, logo dificultou sua permanência no centro do poder daquela sociedade elitista e conservadora. Um exemplo disso foi a dura e profunda crítica que ele se sentiu obrigado a fazer, na Assembleia Constituinte de 1823, ao tráfico de escravos e à própria escravidão. Creio que essa posição ousada contribuiu bastante para o seu exílio no final daquele mesmo ano”, analisa o professor Pádua.

Um lado pouco conhecido de Bonifácio era sua experiência como mineralogista. “Ainda não existia o termo geólogo”, lembra o professor Alex Gonçalves Varela, do Departamento de História da UERJ. Ele estudou mineralogia pela Universidade Freiberg de Minas e Tecnologias, na Alemanha. Viajou pela Europa realizando pesquisas sobre minérios, quando em 1800, descobriu quatro novos minerais: Petalita, Espodumênio, Escapolita e Criolita e os descreveu no importante periódico francês Allgemeines Journal der Chimie,  “A partir dessa descoberta, José Bonifácio passou a pertencer a um grupo de mineralogistas reconhecidos”, relata o professor Varela.

“Apesar da mineralogia ser o centro das suas pesquisas, na pedagogia do Iluminismo era necessário sempre adquirir um saber amplo e multidisciplinar”, argumenta José Augusto Pádua. “Tanto que ao longo da vida ele escreveu sobre minerais, sobre química, sobre a vida das baleias, sobre a importância das florestas e da nascente silvicultura, sobre as melhores práticas de agricultura, sobre filosofia, história, literatura e outros campos, inclusive poesia”.

De acordo com o professor Pádua esses conhecimentos o levaram a ser muito respeitado em Portugal. “Ele foi nomeado para uma série de trabalhos relacionados com o que hoje chamaríamos de ‘manejo da natureza’: foi intendente-geral das minas, responsável por projetos de reflorestamento, diretor de obras hidráulicas e outras posições”.

E é essa característica de José Bonifácio como analista do que hoje são conhecidos como problemas ambientais que merece ser mais pesquisada.  “Tomando os devidos cuidados analíticos, me parece evidente que o problema atual das queimadas e do desmatamento deve ser entendido em sua dimensão histórica.  As inquietações e observações de Bonifácio são um marco para esse tipo de análise”, argumenta Pádua.

O professor aponta que ele fez estudos sobre o desaparecimento das florestas, sobre a intervenções nos rios e fez sugestões sobre práticas agrícolas de um ponto de vista muito atual: a qualidade e o custo dos padrões de consumo em relação à destruição do ambiente

Para Pádua, Bonifácio “deve ter o seu nome cada vez mais reconhecido na vanguarda dos pensadores ilustrados que foram chamados de ‘estadistas-filósofos’ ou ‘pais fundadores’ do período das independências nas Américas”. 

Equipe CBEAL
Colaboraram Catarina Damasceno e Letícia Torres