Cultura latino-americana: conheça o enredo de um amor em tempos de epidemia

Circula pela Internet um texto que não é do livro O amor nos tempos do cólera e não foi escrito por Gabriel García Márquez. #FiqueEmCasa e saiba mais sobre este clássico da literatura latino-americana

Se você recebeu pelo Whatsapp um texto sobre quarentena que seria extraído do livro O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez, e que reproduz o diálogo entre um menino e o capitão de uma embarcação, cuidado. Esse é mais um dos conteúdos falsos que circulam nas redes sociais.

Esse trecho não está no livro de Gabriel García Márquez, nem foi escrito por ele. A confusão, típica da era de informações falsas difundidas pela internet, pode ter sido provocada porque um dos períodos da história de O amor nos tempos do cólera se passa durante uma epidemia de cólera na cidade colombiana de Cartagena de las Índias, no século XIX, em que quarentenas também eram uma estratégia para evitar o contágio.

Atualmente, a quarentena e o distanciamento social continuam sendo estratégias eficazes para combater a disseminação de vírus novos e pouco conhecidos, como o vírus da Covid-19.

Para colaborar com a campanha #FiqueEmCasa, o Memorial da América Latina traz mais informações sobre o livro de García Márquez não só como indicação de leitura, mas também para ampliar seu conhecimento da cultura latino-americana.

Foto: Reprodução de cena do filme Love in the Time of Cholera (2007)

Uma história de amor

— Fermina — disse [Florentino Ariza] — esperei esta ocasião durante mais de meio século, para lhe repetir uma vez mais o juramento de minha fidelidade eterna e meu amor para sempre.

O livro foi inspirado na história dos pais de García Márquez, um telegrafista e a filha de uma respeitada família local, e conta os caminhos do amor entre Fermina Daza e Florentino Ariza. “Amor e morte são temas universais que estão sublinhados no título dessa obra – o cólera pode ser lido também dessa maneira – mas é a vida, e principalmente o que cada um faz com ela, que traça a jornada mais intensa vivenciada por esses personagens”, analisa a professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste, Adriana Martinez, que defendeu seu mestrado sobre a obra.

A professora da Universidade Federal do Pará, Marinilce Coelho, que também fez o mestrado sobre o livro, entende que é o amor que atrai o leitor. “Penso que o tema do amor único e os labirintos que as inúmeras possibilidades de amar apresentam nesta obra tenham atraído tanto o leitor. Gabriel Garcia Márquez soube escrever acerca do amor e nos presenteou com tal romance em meio a tantos desencontros, medos, epidemias”, argumenta Marinilce.

Florentino Ariza e Fermina Daza se conhecem ainda adolescentes, mas o romance é proibido pelo pai de Fermina, Lorenzo Daza, que busca no casamento da filha uma forma de ascensão social. Para tentar impedir a aproximação de Florentino, o pai de Fermina a envia para outra cidade. O romance continua em trocas de mensagens enviadas por telégrafo. Quando os jovens finalmente se encontram depois de anos, Fermina se decepciona com Florentino e acaba se casando com o renomado médico Juvenal Urbino. Florentino Ariza faz uma promessa de amor eterno para sua “deusa coroada” que dura “cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias”.

Como em toda a literatura de García Márquez, além da história principal, há uma série de referências aos relatos familiares e ao contexto político-social da Colômbia, como as guerras civis, as estruturas de poder, as relações sociais. A epidemia do cólera é um dos cenários em que essas narrativas acontecem. Tanto quanto nos demais livros de Márquez, ler O amor nos tempos do cólera é conhecer diversas faces da cultura e da história da América Latina.

“É possível rastrear no legado de García Márquez a construção de comarcas literárias – conceito proposto por Angel Rama – em que há uma representação da cultura latino-americana expressa, por exemplo, nos costumes, nos comportamentos, nas linguagens e nas histórias locais do romance”, explica a professora Adriana Martinez. “Nesse romance”, detalha ela, “a cidade principal onde a trama se desenvolve é inominada, mas não as regiões de deslocamento interno dos personagens (como Caiena, Santa Clara, São João da Ciénaga, povoado de Valledupar, Cornijas de Serra Nevada), o que faz muitos estudiosos interpretarem essa comarca como caribenha. O gosto pela estética da França (seja na biblioteca, nas vestimentas ou nos móveis) do Doutor Juvenal Urbino e depois, em certa medida, reconhecíveis em Fermina Daza, faz referência tanto à colonização dos franceses no continente, como também pode ser lido como uma alusão ao epicentro Paris que serviu como cultura cosmopolita em parte da produção literária na América Latina. Igualmente, há a contribuição da cultura africana nessa comarca caribenha, sendo que a posição de miséria dos bairros onde [os afrodescendentes] vivem em sua maioria e a ocupação de trabalhos subalternos indicam a não superação da estratificação colonial dessa cidade”.

Para Adriana, assim como em Cem anos de solidão, a cidade em que se passa O amor nos tempos do cólera é metáfora da América Latina, “devido a sua composição social que remonta aos tempos da colonização, o desenvolvimento de determinadas áreas urbanas e a permanência do atraso em outras comunidades (externas e internas a essa cidade), bem como o caráter cíclico do cólera nessa sociedade condenada a uma espécie de enfermidade perpétua”.

A professora Marinilce também vê essa metáfora da América Latina. “A obra marquesiana tece temas fundamentais para o entendimento da cultura latino-americana: a solidão, o poder, a morte e o amor. Gabriel Garcia Márquez delineou e trouxe à tona em sua obra literária traços de uma trajetória histórica da América Latina impulsionada pela exploração capitalista, pelos preconceitos sociais e pelo desejo humano de viver as paixões até as últimas consequências”.

Reprodução de cena do filme Love in the Time of Cholera (2007)

Leitura em tempos de quarentena

Mesmo não sendo o tema principal de O amor nos tempos do cólera, trechos falsos sobre a quarentena, atribuídos ao livro, circularam pelas redes sociais, tentando pegar carona na popularidade do escritor colombiano.

A expressão “quarentena” aparece em duas passagens ao longo da obra. A primeira trata dos esforços do Doutor Juvenal Urbino para combater a epidemia de cólera. A segunda, já no final do livro, envolve o diálogo com o comandante de uma embarcação. Mas esse trecho não tem qualquer relação com o que circulou pelas redes.

“Pode-se pensar que o princípio inicial de as pessoas procurarem esse romance para a leitura seja a busca por uma compreensão desse momento atual, então elas encontram uma linda história de amor, na esteira do realismo fantástico, que durou cinquenta e um anos, noves meses e quatro dias para ser concretizada”, comenta a professora da Universidade Estadual de Goiás, Zilda Dourado, mais uma pesquisadora que fez mestrado sobre o romance. “Logo a obra se torna uma leitura prazerosa, erótica, lírica, cheia de lindas reflexões sobre a vida e sobre o amor”, relata Zilda.

O amor nos tempos do cólera, muito mais do que por falar de quarentenas e epidemias, é uma leitura indicada para estes tempos de distanciamento social. “Relendo o romance, não tive como não me comover diante da descrição minuciosa que Gabriel García Márquez faz das vítimas do cólera, na Colômbia do século XIX, e associá-la ao sofrimento da atual pandemia da Covid-19”, conta Marinilce Coelho.

Para ela, o autor retrata um cenário muito parecido com o de hoje. “As condições sanitárias inexistentes, a morte de médicos em combate à epidemia, as primeiras vítimas que tombaram fulminadas pela doença, os velórios não permitidos, os cemitérios em que não cabiam mais os mortos.  A constatação de que o cólera atingiu muito mais a população negra, por ser a mais numerosa e pobre”.

Além dessa descrição sobre a epidemia, na opinião da professora Adriana Martinez, o romance também serve como uma espécie de apoio terapêutico, por ser “uma história de amor, de superação, inclusive, do tempo e da morte”. “A obsessão de Florentino Ariza em não morrer para concretizar seu amor com Fermina Daza”, explica ela, “bem como o amor que se desenvolve no matrimônio entre Juvenal Urbino e Fermina, podem servir como inspiração para esse momento. Isso porque há pesquisas realizadas no país e no exterior de que, devido ao isolamento social, muitos casais estão vivenciando pela primeira vez o matrimônio em seu cotidiano e, somada à pandemia, a relação pode ser questionada”.

Estrutura

Se você ainda não leu O amor nos tempos do cólera, prepare-se para uma obra da fase mais madura do autor colombiano.

A professora Marinilce avisa que o leitor encontrará uma das principais qualidades de García Márquez: a estrutura. “O romance é construído no ir e vir do tempo. O presente e o passado se entrelaçam de tal forma, que o leitor menos desavisado percebe a beleza da arte de contar histórias por Gabriel García Márquez. A lucidez e a poesia para descrever os personagens. O andar altivo da mocidade de Fermina Daza que se transforma com o passar dos anos. A paisagem do lugar que é duramente modificada em nome do progresso econômico, sem esquecer dos cheiros, cores e sons do lugar – que são minuciosamente retratados”.

Adriana também destaca a estrutura não-linear. “É uma narrativa que privilegia um leitor atuante e disposto a interpretar sua construção, que alterna constantemente o foco narrativo, em que o tempo se faz mais notável nas subjetividades dos protagonistas e por diversos espaços geográficos. É uma obra ficcional hispano-americana que pertence à fase madura do escritor colombiano”.

No cinema

O amor nos tempos do cólera foi adaptado para o cinema. Dirigido por Mike Newel, o filme foi lançado em 2007 e traz no elenco Javier Bardem, como Florentino Ariza, Giovanna Mezzogiorno, no papel de Fermina Daza, e Fernanda Montenegro que interpreta Tránsito Ariza, a mãe de Florentino. (Veja o trailler aqui)

Gabriel García Márquez

O autor de O amor nos tempos do cólera é um dos mais conhecidos autores da América Latina e um dos principais representantes do movimento conhecido como Realismo Fantástico ou Realismo Mágico. Foi vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Entre suas obras mais famosas estão Cem anos de solidão, Outono do patriarca, Ninguém escreve ao coronel, Crônica de uma morte anunciada e Viver para contar. A inspiração nas narrativas familiares e colombianas é característica da literatura de Márquez.

Texto falso

Se você quiser conferir se o texto que recebeu foi mesmo retirado de O amor nos tempos do cólera, atenção: o que circulou pelas redes sociais é, na verdade, do escritor italiano Alessandro Frezza e inicia assim:

“–Capitão, o menino está preocupado e muito inquieto devido à quarentena que o porto nos impôs! – O que te inquieta, menino? Não tens comida suficiente? Não dormes o suficiente?”.

Clique aqui e veja alguns trechos reais do livro de García Márquez.

Equipe CBEAL