Rastros de luz e sombra
Textos e fotos: Pedro Martins

Trabalhar a terra com seus estalos
O cenário é o Bairro da Liberdade, no distrito da Sé, centro de São Paulo.
7 de setembro de 1882. Nos campos do Ypiranga, Dom Pedro I empunha sua espada e proclama o grito que, figurativamente, “reverbera por todo o império”: – Independência ou morte!
O grito não reverberou no Campo da Forca. A morte continuava ecoando entre os que tiveram suas independências negadas. Independência para quem? A morte já estava ali, assentada na terra batida de cor vermelho-sangue.
Para os aflitos, ergue-se em meio ao Cemitério a Capela Nossa Senhora dos Aflitos. E a Igreja da Santa Cruz dos Enforcados.
Não poderia ser mais paradoxal: no Largo da Forca se instala uma fonte de vida, um charariz chamado Liberdade; o cenário se transforma, ganha novo protagonista. Homenagem à abolição da pena máxima ao Brasil, as águas que jorram do chafariz lavam as terras ensanguentadas que firmam o chão.
A evocação dos enforcados, torturados e mortos, a reminiscência do Largo da Forca, horro de passados tempos, torna pesarosa nossa sensibilidade de transeunte.

Legendas:


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Sobre o cimento do peito, algo de sombra, algo de água
O cenário é o Paisssandu, no atual distrito da República, região central da cidade.
– O que significa Paissandu?
A resposta vem da ausência. O povo vermelho está em silêncio, não há assobios, ecos, ruídos. Constatação de que a história pátria está submergida na razão dos nacionalistas. E é preciso que se diga: Paissandu é a antessala das gloriosas realizações na guerra do Paraguai.
Era a encruzilhada das águas perigosas do Yacuba – águas que nutriam encantadoramente o seio da cidade. A evocação dos córregos reverbera o som das negras batendo roupas, das mães pretas alimentando a nação.
Sobre as terras do sargento-mor Manoel Zuniga, proprietário dessa área no século XVIII, o batuque do tambor e o sino sacro anunciam a chegada de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no início do século XX. Entre banto e barroco, a crença no sincretismo costura o manto da santa que se vê celebrada em uma grande procissão.
O Congo se assenta em São Paulo. Um rei e uma rainha são eleitos, a corte de uma nova ordem é formada. As correntes se soltaram e as caixas, ganzás, gonguês, taróis e tambores fazem a gira na praça, aos pés da igreja. É no som dos que vieram de lá que Paissandu se ergueu, alimentado pela mãe que não pariu.



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Mero fortuito acaso
Cenário: antigo largo, marco da República, distrito da região central de São Paulo.
Descendo a Rua da Palha se chega ao Largo da Memória. O passante é recepcionado pelo Obelisco do Piques, imponência esculpida em granito cinza-claro. Firme e ereto, o obelisco é abraçado por um conjunto pitoresco de colunas com uma composição caricata de azulejos brancos e azuis ao fundo. Ao chafariz que já foi tanque, pergunto: Quais memórias você guarda? A fonte seca não me dá resposta.
Uma estaca de granito perpetua as arrancadas bandeirantes e católicas fundadoras dessa cidade. Por tão gigantescas realizações, o preito de homenagem. Monumento bandeirante. Monumento à memória. Monumento à miscigenação. – Monumento?
No aqui e agora, ao fechar os olhos e sentir os ruídos ácidos das travessias, escuto ao longe um som abafado e seco. Alguém pergunta na inocência da ausência:
— Era aqui então que aconteciam os leilões de escravos? Não sabia!
Não era oficialmente no Largo do Pique a senzala, mas na memória do largo ela se gravou. O leilão de escravos era ali, ao meio-dia, ao som do dobre do sino de São Francisco, no outro lado da encosta.
Nenhum outro lugar mais propício, afinal a elevação, com o largo patamar circundado pelo paredão, põe em destaque a carne mais barata do mercado. Ali ficarão em destaque, numa vitrina de azulejos e granitos, à exposição da cobiça dos compradores.
O leilão é ali
O Largo, agora sem simetria, se reafirma fora da ordem mansa de um certo belo. Pouco existe do passado. O rio, enterrado. O Tanque Reúno, morto. O chafariz, extinto. Os negros apagados, o mercado fechado, os compradores em outros cargos. Da memória, só a pirâmide ereta e rude que restou como o grande símbolo da república.


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Que multidão o silêncio povoa?
O Centro Histórico da cidade é o cenário das imagens.
Formado pelas Ruas 15 de Novembro, Direita e São Bento, o centro histórico de São Paulo constitui um triângulo acidentado, aristocrático centro de terra estéril, por entre vias comerciais hoje tomadas por matilhas de barbados em trajes finos e damas equilibristas de saltos altos no calçadão de ladrilhos soltos.
Nas encruzilhadas de contornos irregulares surgem viajantes do tempo: o sapateiro faz sua clientela, a nega abre seu tabuleiro, o violeiro acidentado embala romances igualmente acidentados em serenatas plangentes, formam-se grupos onde a tagarelice transborda negócios. E assim se moldou a cidade, a jurisdição dos negócios em meio a várzeas triunfantes.
Nos intervalos da aristocracia brasileira entra em cena Tia Anastácia e seus valiosos temperos, suas frutas e legumes fresquinhos e sua comida de dar água na boca. Por hora as quitandas que ocupavam a rua faziam o maior sucesso. Na hora do almoço, a Rua da Quitanda se transformava no cortejo da boia.
— Onde está a negra vendedora que trabalha aqui? — pergunta um cliente assíduo.
— Ela está ali, no Largo da Misericórdia.
Mas do Largo pouco resta. Foi demolido. Por isso, não a vejo.
Na esquina da Rua Direita, havia a Igreja da Misericórdia. Na porta da igreja, foi construído o Chafariz da Misericórdia, primeiro chafariz público da capital, para saciar a sede dos 20 mil habitantes da capital de São Paulo. A construção ficou na responsabilidade de Joaquim Pinto de Oliveira Thebas ou negro Tebas, como era conhecido, ex-escravizado alforriado que se tornou arquiteto. O chafariz era abastecido pela nascente do ribeirão Anhangabaú; a água chegava às casas pelos aguadeiros, que vendiam o líquido da misericórdia de porta em porta. Mais uma vez, a capital era nutrida por mãos acorrentadas.
Como prenúncio do futuro, o Chafariz da Misericórdia foi transferido para o largo de Santa Cecília e anos mais tarde apagado de vez da história juntamente com a igreja. Dos escombros do templo, demolido em seu aniversário de 170 anos, se ergueu o Edifício Ouro para São Paulo, em homenagem ao movimento paulista de 1932. Mais uma vez, o ouro venceu.



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Resguardo rebumtante
As fotos tem o distrito da Sé como cenário.
Marco zero. No ano de 1554 da Era de Cristo foi presidida a primeira missa no povoado de São Paulo de Piratininga; chegou na caravela o barroco, com um grupo de jesuítas, membros da Companhia de Jesus que vinham na missão de catequizar os indígenas que viviam nessas terras, do lado de cá.
Ganha-se a primeira construção erguida na cidade, Cacique Tibiriçá abre espaço, foi o Colégio dos jesuítas, a mais nova instituição de ensino Pau-Brasil – hoje Pateo do Collegio.
Resistência entre os Tamoios e os Carijós. Oswald de Andrade não contou. Da Sé emerge a cidade. O zero. O início. A roda viva. São Paulo está fundada, assentada, demarcada. Da terra, nenhum centímetro é revogado.
Antes de ontem, Tamoios e Jesuítas ergueram a primeira igreja. Sé. Ontem o alemão a refez. Sé. Hoje resta a de Alexandre Vannucchi. Catedral. Agora, os que ali viveram dependem da memória para serem lembrados. Falha.
O comércio ao redor é labuta de imigrantes: espanhóis, italianos, japoneses e por último os negros sem terras. Começava o processo de urbanização da cidade. O futuro chegou para a missa. Alargamento das ruas, calçamentos, canalização de água, iluminação pública. O marco zero se adequa aos novos tempos.
O coração da cidade é aqui, e está com batimento acelerado, assustado. No Largo Municipal, João Mendes libera a serotonina do julgamento no último grito do juiz. Molda os passos acelerados dos paulistas.
Atualmente o bairro é um dos mais conhecidos pelos convidados da santa ceia antropofágica, aqui a diversão é garantida, lugares históricos sem legenda ou tradução, fácil. As áreas comerciais e empresariais contribuem para a economia da cidade, tornando-a uma potência. Fiquem tranquilos, pois cada pedaço tem garantido o seu lugar à mesa.



Derradeira fé na última esperança
Um cenário afastado do centro, o bairro do Jabaquara, na Zona Sul da cidade.
Jabaquara. Îababa (fuga) kûara (toca). Toca da fuga. Possível alusão ao conjunto de quilombos que foram se assentando na região ao longo do período colonial. De todos, restou apenas um: o Sítio da Ressaca.
O sargento-mór Lopes de Medeiros foi o primeiro proprietário da área, que por cerca de dois séculos foi sendo revendida, de tempos em tempos. Foi possivelmente um refúgio para escravizados em fuga, um local de passagem.
Possibilidades, nada de concreto. As pesquisas não são conclusivas.
A casa-sede do Sítio da Ressaca, feita em taipa de pilão, foi construída provavelmente em 1719, ano inscrito na verga da porta principal. Por pouco o expresso da modernidade não abala sua estrutura. Em 1970, uma parte do sítio foi desapropriada para construção do pátio de manobras dos trens do Metrô; a outra, foi loteada e se transformou no atual Jardim Metropolitano. Dois anos depois, a antiga casa-sede foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo (Condephaat). Tombamento tardio, já que nada restava do ambiente original.
No terreno de 1 hectare em torno da casa, foi construído o Centro de Culturas Negras do Jabaquara Mãe Sylvia de Oxalá. Por mais de uma década, a partir de 1990, abrigou a abrigar o Acervo da Memória e do Viver Afro-Brasileiro, tornando-se um referencial da memória afrobrasileira.
A casa, outrora esquecida, se tornou um símbolo da cultura negra em São Paulo. Antiga, exige restaurações periódicas para que não venha abaixo.


Que gente é essa?
Aqui o cenário é a Barra Funda, bairro da região oeste da capital.
São Paulo, início do século XX. A estrada de ferro que trazia mercadorias do interior para a capital passava na Barra Funda. Ali, no Largo da Banana, os negros que trabalhavam como carregadores, aguardavam a chegada dos trens cantando e jogando tiririca (um tipo de capoeira).
1914. Chegou o samba. Veio do batuque e de músicas cantadas nas senzalas rurais do interior do estado. Vendo a euforia dos seus, Dionísio Barbosa fundou o primeiro cordão carnavalesco paulista, o Grupo Carnavalesco Barra Funda que adotou o nome de Cordão Camisa Verde: 12 homens vestindo calça branca, camisa verde e chapéu de palha. Em suas mãos levavam pandeiros e chocalhos.
1920. Com 60 foliões no Cordão, chegou o primeiro surdo e o tamborim.
1939. A camisa verde do samba foi confundida com a integralista. Getúlio Vargas, que não era convidado, mandou acabar com a festa, apesar de a maioria nem imaginar o que pregava o líder integralista Plínio Salgado.
1950. Sobre o Largo da Banana foi construído o Viaduto Pacaembu, que prolongava a avenida homônima para além da via férrea. O samba é sufocado, o som já não ecoa mais como antes. A paisagem mudou, o expresso da modernidade começou a circular.
1952. O cordão voltou à festa. Mas como mudara seu espaço, mudaram seu nome para Camisa Verde e Branco. Virou escola de samba. Família de Inocêncio Mulata, Dona Sinhá, Tobias, Talismã e Ideval, mestre-sala Delegado se juntam à roda, e entram na briga pelo direito de sambar.
1960. O largo não existe mais. A Escola de Samba Camisa Verde e Branco se muda dali. O protagonista do espaço é o viaduto. Venceram mais uma vez. Geraldão da Barra Funda, o Geraldo Filme, compositor e frequentador assíduo das rodas que ali havia, não deixa barato: integra em suas canções lamentos ao Largo desaparecido. Canta e anuncia: “Fiquei sem o terreiro da escola / Já não posso mais sambar / Sambista sem o Largo da Banana / A Barra Funda vai parar / Surgiu um viaduto, é progresso / Eu não posso protestar / Adeus, berço do samba, / Eu vou-me embora / Vou sambar n’outro lugar”.
1989. No terreno vizinho ao viaduto e ao antigo Largo da Banana, é construído o Memorial da América Latina.
2022. As intervenções urbanas continuam a mudar os rumos da Rua Barra Funda.


O vento de lá
O cenário é a Vila Brasilândia, bairro periférico da Zona Norte da cidade.
Santa Bárbara. Iansã. Mãe Manaundê. Mãe Pulquéria Oyá, Axé!
Mãe Manaundê (Julita Lima Albuquerque) nascida em 1926 em Propriá, divisa do estado da Bahia, filha de escravos alforriados, foi iniciada em Salvador em 1939 pela famosa yalorixá Mãe Nanã de Aracaju (Erundina Nobre dos Santos, 1891-1981). Voltou para Sergipe, fugindo de um casamento arranjado; casou-se pela segunda vez e teve 24 filhos, a maioria adotivos.
Veio para São Paulo com sua família na década de 1940 e, em 1962, fundou a Tenda Espírita Oiá Dilê. Diante da forte repressão vigente na época, acatou a antiga tradição dos escravos, de substituir orixás com nomes de santos católicos: estava fundado o Terreiro de Santa Bárbara. Assim era mais seguro.
Na Rua Ruiva, 90, a matriarca de Oyá, mãe de 24 filhos, bate tambor e abre os braços para os filhos da vizinhança. Agora é chamada de Mãe Manaundê, Mam’etu Manaundê. Nas giras do vento do dia 4 de dezembro, Manaundê abre a casa para o povo, da esquina se escuta os tambores bantu, é Angola chegando. A roda vai se formando. Eparrey Oyá!
Em 2004 a menina de Oyá descansa em Orum. Desde então seus filhos, netos e bisnetos cuidam da casa. Hoje é Mãe Pulquéria Oyá quem está à frente, comandando o terreiro e lutando para manter viva a memória da matriarca.
Em 2014, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) dá ao mais antigo terreiro de candomblé do estado de São Paulo o título de patrimônio imaterial histórico. O título se relaciona ao cultivo de saberes, práticas e vivências religiosas. O terreiro também caminha para ser considerado patrimônio histórico.
Memória viva!


Letígio de ato atado
O Carandiru, zona norte da cidade, é o cenário.
21 de abril de 1920, o governo paulista inaugura uma obra monumental, a nova penitenciária. A Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru, devido a sua localização no centro do bairro homônimo, tem capacidade total para 3.500 presos, distribuídos em três pavilhões (2, 5, 8). Por alguns anos de torna o segundo maior presidio do mundo e o mais seguro. Uma referência.
Essa cidade penitenciária tinha intenção de separar réus primários de presos reincidentes, além da separação dos detentos pela natureza do delito. Isso nunca aconteceu.
Com o aumento da criminalidade na capital, os demais presídios ficaram sem espaço e a Casa de Detenção se transformou em um depósito humano. A todo novo mandato de governador, construía-se mais um pavilhão. Nos anos 1960 foram entregues quatro novos pavilhões. Mesmo assim não foi o suficiente. No final de 1980, ali havia cerca de oito mil detentos, que se desdobravam na rígida física do espaço. Era só questão de tempo pra que a caixa de pandora ganhasse pressão.
Em 2 de outubro de 1992, no Pavilhão 9, onde ficavam os réus primários (presos pela primeira vez), dois detentos de facções rivais disputavam uma partida de futebol no pátio do presídio. Dos ânimos do vencedor e das discordâncias do perdedor nasce uma briga, algo nada incomum. Inesperada foi a proporção dessa desavença. Mesmo com os detentos recolhidos às celas, a briga não parou. Uma rebelião.
Com finalidade de controlar a situação, cerca de 300 policiais entraram no pavilhão sob o comando do Coronel Ubiratan. Aí uma névoa de incertezas paira sobre a história, com versões diferentes sobre a conduta dos 300 policiais que entraram no presídio. Legítima defesa, reações violentas, negociações, morte. Resultado da invasão: segundo dados oficiais do governo do estado, 111 presos foram mortos. Há quem diga que o número é maior.
Em março de 1993, o Ministério Público acusou 120 dos policiais militares por homicídio, tentativa de assassinato e lesão corporal de 111 detentos. Em 2001, o Coronel Ubiratan foi condenado a 623 anos de prisão por 102 mortes. No entanto, em 2006, em julgamento de recurso, foi absolvido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Nesse mesmo ano foi assassinado em seu apartamento. No muro do cemitério onde está enterrado, os dizeres: “Aqui se faz, aqui se paga”. O crime ainda não foi solucionado.
Em 2002, o governo do estado iniciou o processo de desativação do Carandiru. Apenas a ala hospitalar permanece em funcionamento, os pavilhões 8 e 9 foram demolidos, outros mantidos e reformados. Nesses funcionam duas escolas técnicas públicas.
Atualmente o local abriga ainda o Parque da Juventude e a Biblioteca de São Paulo.


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Esses textos e ensaio fotográfico fazem parte da revista Nossa América nº 64
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