Fantasmagorias urbanas paulistanas
O que escondem calçadas, vias asfaltadas, praças e edifícios das cidades? O que há por detrás de muros e tapumes que ladeiam os passeios? Canos de água e esgoto, ratos, reformas, construções… Não. Não há respostas fáceis. É preciso ir mais fundo e além
Maristela Debenest

Circulamos pelas grandes cidades apressados, premidos na equação tempo– espaço. Vivemos em tal velocidade que percorremos os lugares automaticamente, como máquinas, em rotas predeterminadas – casa, trabalho, escola, academia, casa de volta. Velozes e furiosos, andamos por ruas e avenidas, ônibus, metrôs, motos ou carros particulares. Presos às pequenas telas, pouco erguemos os olhos para a paisagem, especialmente se ela parece um tanto hostil.
Mensagens, notícias e memes dos aparelhos portáteis concentram nossa atenção. Iludidos por esse acesso fácil, enxergamos cada vez menos, em dimensão cada vez menor e mais imediata. Tal qual previu o Vilém Flusser, filósofo tcheco, em seu livro Filosofia da caixa preta, de 1983: “O homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função de imagens. Não mais decifra as cenas da imagem como significados do mundo, mas o próprio mundo vai sendo vivenciado como conjunto de cenas”.
Em meio à azáfama automatizada, maquinizada, individualizada, há sempre os que andam na contramão. Os que nos convidam a olhar, ver e enxergar, contemplar, refletir, imaginar, fabular. Os que projetam um outro olhar e estar no mundo: os artistas das palavras, das imagens, dos sons.
Pedro Martins é um deles. Como ele mesmo se define, um artista-pensador, preocupado em compreender a afro-latino-americanidade.
Percursos novos pela urbe
Pedro é jovem, negro, e mora na Brasilândia, bairro periférico na zona norte da capital paulista. Terminado o ensino médio, ganhou a cidade quando ingressou na faculdade, situada na Vila Mariana, centro-sul da capital. O novo local de aprendizado lhe abriu novos caminhos. E os bairros e lugares que passou a percorrer o instigaram e confundiram – “O ardor patrício dos topônimos entrópicos me levou a um beco sem saída”, escreveu num poema. Como desvendar esses cenários? Foi no encontro com o pensamento do geógrafo brasileiro Milton Santos e arquiteto italiano Francesco Careri que encontrou apoio para avançar no percurso.
Num conhecido sebo de livros na Sé, deparou com São Paulo de outrora, livro escrito por Paulo Cursino de Moura em 1932. Nele, a reprodução da Planta Imperial da Cidade de São Paulo (desenhada em 1810 e considerada o primeiro mapa da cidade) capturou sua atenção. Tão diversa da malha atual do Centro, esse livro e essa antiga planta se converteram num mapeamento primordial dos territórios a serem descobertos. Porque descobrir é também revelar o que está encoberto, o que foi eliminado; o que alguma vez foi registrado – em mapas, fotos, documentos – e está olvidado ou foi subjugado.
Integrado ao debate contemporâneo sobre a preservação da história negra nos territórios urbanos, Pedro se questionava e se questiona: qual o papel da fotografia na construção de nossas relações e interações na cidade?
O livro de Paulo Cursino, os textos da faculdade, cursos e seminários (presenciais e online), visita a exposições, pesquisas sobre o patrimônio, deambulações e sua câmera fotográfica foram ferramentas essenciais para que, pouco a pouco, o artista construísse seu assentamento nos territórios urbanos agora descobertos.
Assentamento e desenraizamento
Nas obras desse seu assentamento, a visualidade poética desafia nossa memória individual e coletiva e nos faz indagar. Afinal, o que é isso? Onde fica esse lugar? Por que nunca reparei nisso antes? Por que nunca soube dessa história?
Pedro Martins constata que há pouquíssimas referências visuais da presença negra nos territórios urbanos no Brasil – com a exceção de Salvador: “A história negra está muito pouco representada fora das camadas secundárias ou terciárias da sociedade. E não há espaço para os negros serem propositores-protagonistas de suas próprias memórias, para se contrapor a esse memoricídio”. Daí seus questionamentos sobre eleição e preservação do patrimônio na cidade: Que memórias vêm sendo salvaguardadas? A quem se vem atribuindo o papel de protagonista da construção dessa história e desse espaço?
No conjunto do trabalho, poucas são as fotos tecnicamente nítidas e limpas. Ao contrário, na maioria são imagens densas – muitas construídas no estilo are-bure-boke (granulado, tremido, desfocado) do renomado fotógrafo japonês Daido Moriyama. Cenas difusas, fugidias, noturnas, cheias de camadas, como as memórias no território urbano, coisas e gentes mal visíveis, em marcos do passado e do presente. Fantasmagorias que a luz e o movimento da câmera ajudam a captar na paisagem urbana.
Citando Milton Santos, diz que o espaço geográfico é “uma acumulação desigual de tempos”, em que se podem perceber “rugosidades”. Essas rugosidades se interpõem no caminho como resistências, rastros de algo que existia ali, antes de ser suprimido pelas forças históricas da superposição e dominação.
Aficcionado por cinema, com destaque para a produção dos cineastas Jean-Luc Godard e Arthur Omar, Pedro Martins compara a elaboração de seu trabalho à realização de um filme. Começa com a pré-produção (que corresponde ao mapeamento e à elaboração dos textos-argumentos), segue na produção propriamente dita (o uso de diferentes técnicas fotográficas) para chegar à pós-produção (expografia e montagem). É um trabalho intelectual, cerebral, em que o fortuito eventual pode ou não ser incorporado.
O artista explica que a narrativa é a “ação de ocupar a cidade”, na qual lida com dois níveis de realidade: a concreta, que é visível, sem antolhos, e a abstrata, que é elaborada conceitualmente e abre a “camada da imaginação, do psíquico, do que vier a seguir”. Exemplifica com uma cena na Brasilândia, onde fica o primeiro terreiro de candomblé convertido em patrimônio em São Paulo. “Quando eu estava fotografando a rua do terreiro, capturei a imagem de um transeunte. Pelos recursos de granulação, sobreposição e desfoque que uso, a imagem surgiu com um vulto branco, remetendo a Iansã, justamente a entidade que preside o terreiro”.
Suas fotografias se opõem ao automatismo e à naturalidade com que percorremos territórios e logradouros da cidade, contrapõem -se à superficialidade com que naturalizamos o mundo – ou à “alienação radical do olhar”, como designa. E assim ele formula a questão maior: “Qual é meu papel de artista nessa construção dos marcos da memória?”.
No lugar de propor respostas, Pedro Martins nos instiga a conhecer e reconhecer, exercer e exercitar o que ele chama de “pedagogia das encruzilhadas”. E, talvez, a encontrar Iroko, entidade que representa a dimensão do tempo no candomblé de tradição Ketu. “Meu trabalho é uma peça no mapa do jogo, mais um caminho, entre tantos outros, em busca de rever o protagonismo das identidades negras”, diz.
Na encruzilhada entre pensamento crítico e escrita fotográfica, o pensador-artista propõe olhares diversos sobre a urbe. Olhares que se inquietem ao rever recantos, que reconsiderem a história, as histórias, as memórias e o patrimônio coletivo. Um convite a redescobrir a cidade e suas camadas afropaulistanas – fugidias, desconhecidas, borradas, esquecidas, soterradas. A ver fundo e além. Onde quer que nossos pés nos levem.
Este texto faz parte da edição física da revista Nossa América nº64
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