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João Carlos Corrêa

Diretor de Atividades Culturais da Fundação Memorial da América Latina

Especialista em Gestão Cultural (PUC-Rio) e em Jornalismo Cultural e de Entretenimento (Belas Artes-SP); mestrando em Gestão e Políticas Públicas (IDP-SP) e em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (PROLAM-USP).

Um centro de atenção no combate à indiferença

A nova estrutura de atendimento no Memorial da América Latina reforça redes de orientação e acolhimento para imigrantes e reposiciona a cidade diante da difícil travessia

No dia 18 de dezembro, o Memorial da América Latina ganhou uma sonoridade um pouco diferente da que estava habituado. Não foi o som de um de nossos tantos espetáculos, nem o burburinho de vozes de uma cerimônia institucional. Foi o som do cotidiano que deixou de ser invisível para nós. Vozes em espanhol, em português hesitante, o bom portunhol, numa mistura de línguas e urgências.  Vi gente procurando um lugar para sentar, segurando pastas, papéis e celulares, e olhos que iam do cansaço à expectativa. A inauguração do Centro de Atendimento ao Imigrante nos mostrou, em poucas horas, uma São Paulo que se faz por dentro, no corre-corre da cidade que não dorme, mas que nesse momento nos obrigou a perceber o que quase sempre passa apressado diante de nós.

Naquele dia, acolher virou pertencimento na prática, a única maneira de colocar essa palavra à prova de verdade, e isso se viu na escuta ativa e na orientação precisa oferecidas a quem nos procurava. Para muitos recém-chegados, que ainda estavam conhecendo o espaço e experimentando dos primeiros serviços ofertados, a primeira muralha declarada foi a burocracia, “poner los papeles en regla”, conseguir ter em mãos o documento que abre portas para a cidadania. Para outros, o maior peso ainda era conseguir encontrar moradia,  trabalho e se entender no idioma que trava e expõe a pessoa ao constrangimento e ao risco. Posso dizer de uma sombra que conheço bem, a solidão que não se vê, mas que dá quase pra tocar, de tão presente.  A cidade é imensa e, ao mesmo tempo, estreita e assustadora, sobretudo para quem vem sem mapa, sem rede de apoio ou referências.

Enquanto ouvia, dividido entre a inauguração e conversas aqui e ali, me voltei para mim mesmo. Criado no Rio de Janeiro, aos 18 anos fui sozinho para Brasília. Eu tinha emprego garantido, falávamos todos o mesmo idioma e fui recebido por amigos. Ainda assim, a adaptação não veio fácil. Muitos anos depois, já aos 60, vim para São Paulo e me deparei com uma realidade totalmente diferente da que experimentei em Brasília, onde construí família e referências. De novo, eu falava o mesmo idioma, tinha trabalho e amigos e, mesmo assim, não foi simples. Nunca é. E se não foi fácil para mim, com tantas garantias, eu mal consigo dimensionar a coragem de quem atravessa fronteiras sem a proteção do idioma, sem emprego certo, sem endereço afetivo, carregando no corpo e na fala as marcas do que deixou para trás. Eu quis registrar isso para que não deixemos esse olhar esfriar.

Não por acaso, mais do que respostas, o que apareceu para mim na inauguração do Centro de Integração do Imigrante foi uma necessidade comum de orientação e de acolhida. Quando a vida aperta, quase todo mundo recorre ao que tem à mão, seja internet, amigos, grupos ou redes improvisadas. Só que aí também mora um risco, e muitos relataram isso com a naturalidade de quem já pagou o preço. Para quem atravessa, informação confiável é sobrevivência e esperança. Um centro de atendimento como o agora instalado no Memorial ganha seu real valor quando faz o básico com dignidade, indicando caminhos, reduzindo ruído, encurtando o tempo perdido, e protegendo vulnerabilidades.  Entendendo isso, fica posta nossa missão.

Faz parte de minha natureza olhar para o lado positivo do que é inevitável.  Quando percebo na conversa medo e desesperança, gosto de lembrar que a comida, a música,  a fé, a forma de falar, a festa, o humor, são nosso chão de casa quando o resto parece vacilar. É o que viaja com o imigrante e atravessa fronteiras políticas e culturais. A cultura popular, tantas vezes tratada como pano de fundo ou alegoria, mostra a sua grande vocação, sendo a língua do encontro, a memória portátil que sempre nos acompanha e a única maneira de permanecer inteiro quando a cidade ainda não te reconhece. A leitura de Néstor García Canclini tem guiado meu olhar e, de certo modo, também os meus atos de gestão à frente da diretoria cultural do Memorial. Ele nos oferece um caminho para compreender melhor identidades que não se preservam em estado puro, e se refazem na mistura, no deslocamento e na adaptação, sem folclore e sem romantização. Quando ouvimos de verdade as histórias de quem chega, o que se impõe é a reorganização do cotidiano e o gesto que acolhe. E é nesse ponto que a América Latina deixa de ser abstração e se apresenta como experiência concreta, porque a vida real encontra lugar para ser ouvida com dignidade, sem virar palco político.

Talvez por isso a cena que se formou no Memorial tenha sido tão simbólica e, ao mesmo tempo, tão prática. Entre atendimentos e conversas, estiveram presentes representações consulares de diversos países da América Latina e do Caribe, do Governo do Estado e da Prefeitura de São Paulo, além do próprio presidente do Memorial da América Latina. Não quero ficar listando autoridades por formalidade, mas é importante destacar o que em verdade esse encontro sinaliza e como ele consolida o trabalho que está sendo gestado. Um trabalho que aproxima pessoas, idiomas, aromas e saberes, e que pode virar braço amigo e referência de acolhimento e orientação para quem vem para nossa cidade.

 E, se esta coluna precisa oferecer algo ao leitor comum, que seja a sugestão de um gesto praticável, imediato, sem gorro de Papai Noel. Ao encontrar um novo residente em nosso país, cumprimente e se apresente. Pergunte com respeito, sem pressa, sem que pareça interrogatório. “Bom dia, eu me chamo ____. Você é de onde? Como tem sido para você aqui?” Perguntar vai além da curiosidade vazia e se traduz no necessário reconhecimento do outro. Talvez nos falte ouvir mais, compreender mais e aprender mais, mas estamos tentando, e acredito que trilhamos o caminho certo. Foi isso o que se viu naquele 18 de dezembro, quando abrimos as portas para que os que migraram pudessem reencontrar um lugar para chamar de lar.