COLUNA

João Carlos Corrêa
Diretor de Atividades Culturais da Fundação Memorial da América Latina
Especialista em Gestão Cultural (PUC-Rio) e em Jornalismo Cultural e de Entretenimento (Belas Artes-SP); mestrando em Gestão e Políticas Públicas (IDP-SP) e em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (PROLAM-USP).
Tango e samba: duas danças, duas nações, uma paixão
Um diálogo cultural e regional

Em um mundo cada vez mais conectado, o tango argentino e o samba brasileiro seguem como pilares identitários de suas culturas, muito além da experiência musical. Suas danças carregam em seus ritmos histórias de resistência, festa e cotidiano. Ninguém ouve um bandoneón rasgado ou um surdo marcando o compasso sem reconhecer ali a essência de um povo.
Quero que me acompanhe em um passeio pelas trajetórias do samba e do tango, conhecendo um pouco mais sobre suas origens, evoluções e significados, além do curioso diálogo que promovem, especialmente em São Paulo, uma cidade marcada pela diversidade.
Tanto o samba quanto o tango compartilham um ponto de partida comum. Ambos nasceram em contextos urbanos marcados pela exclusão social, captando influências diversas, africanas, europeias e indígenas, que moldaram suas formas e significados. Essa origem compartilhada nos ajuda a entender como se tornaram símbolos de identidade nacional, na busca por autonomia e a valorização das raízes culturais latino-americanas.
O tango, por exemplo, floresceu nos cortiços de Buenos Aires e Montevidéu no final do século XIX. Era a voz dos imigrantes europeus, dos marginalizados, dos que carregavam a saudade de uma terra distante e a dureza de uma vida nova e incerta. Como bem expressou o compositor Enrique Santos Discépolo, O tango é um pensamento triste que se pode dançar. Essa melancolia reflete a nostalgia de um povo em busca de seu lugar no mundo, transformando a adversidade em arte. A dança, com seu abrazo cerrado e movimentos dramáticos, tornou-se um refúgio e uma forma de comunicação para aqueles que viviam à margem.
Paralelamente, o samba brasileiro emergiu das rodas no Rio de Janeiro, fruto da fusão dos batuques africanos com as danças de salão europeias, especialmente após a abolição da escravatura. É a expressão pura e simples da alegria de um povo que, mesmo diante das adversidades, encontra motivos para celebrar. O samba é a personificação do “jeitinho brasileiro”, improvisado, criativo, cheio de malandragem no melhor sentido da palavra. Ele representa a resistência cultural afro-brasileira, a capacidade de transformar a dor em alegria e a luta em celebração.
Essas danças, em seu nascedouro, serviram como expressões de marginalidade e resistência das classes trabalhadoras. É notório como música e a dança se tornaram formas de resistência em contextos urbanos marcados pela exclusão social e vemos isso claramente na expressividade diaspórica no maxixe, precursor do samba, como afirmação da identidade afro-brasileira. Dor e a alegria se juntaram em um abraço, transformando a adversidade em arte, e o instrumento de percussão passou a contar uma história de luta e superação de uma comunidade que achava o caminho do pertencimento em meio à diversidade urbana.
Apesar de raízes próximas, o tango e o samba desenvolveram linguagens corporais e rituais sociais distintos, que marcam as nuances emocionais e culturais de seus povos.
No tango, a postura do abraço fechado se converte em uma metáfora da própria condição humana em busca por conexão em um mundo que muitas vezes isola. Nos salões de milonga, o ritual é rigoroso: as tandas (séries de músicas do mesmo estilo) e as cortinas (intervalos) marcam o ritmo das interações sociais. O famoso cabeceo, convite silencioso feito de forma simples e discreta, é um jogo sutil de desejo e recusa. Cada passo conta uma história de amor, perda, paixão e resignação. A comunicação dos afetos no tango é como uma conversa entre os corpos dançantes, com cada movimento expressando uma emoção, onde se percebe a importância da interação e conexão emocional entre os parceiros.
No samba de gafieira, a energia é outra. Embora o abraço seja tecnicamente semelhante ao do tango, carrega uma energia diferente, mais voltado a um abraço de celebração. A ginga característica do brasileiro, a informalidade que esconde técnica refinada, e a malandragem que é puro suco de sabedoria popular, são elementos centrais. Nos salões de gafieira, recusar um convite para dançar é quase uma ofensa, e isso é um assunto a ser melhor estudado deslocando o olhar para as relações nos dias de hoje. De todas as formas, o samba, com sua vibração e resiliência, celebra a alegria como forma de resistência cultural afro-brasileira, com cada nota e com cada passo, contando uma história de amor ou de dor; de luta e de esperança.
Existe uma relação entre tango e cidade que me permito abordar. Os movimentos da dança refletem a experiência urbana, refletindo através da caminhada que lhe perculiar suas luzes e suas sombras, suas alegrias e suas tristezas. Essa perspectiva pode ser estendida ao samba, onde o corpo em movimento também dialoga com o espaço urbano, com as ruas, os morros e os salões que o viram nascer e evoluir e ditam a cadência do movimento.
Os dois estilos se transformaram ao longo do tempo, absorvendo novas influências e diversificando suas formas de expressão. O próprio samba de gafieira, em suas múltiplas vertentes, nos apresenta essa adaptação constante. Suas narrativas fundadoras, representadas por clássicos musicais como “Mi Noche Triste” e “Pelo Telefone”, atuaram como “certidões de nascimento” simbólicas para suas nações.
Ao se reinventarem sem perder suas raízes, tango e samba extrapolam o universo da dança, e tornam-se referência para a memória coletiva e canais para o diálogo entre culturas.
Importante destacar que a promoção dessas artes por meio de intercâmbios culturais desempenhou um papel importante na construção de pontes entre Brasil e Argentina. A diplomacia cultural, o intercâmbio intelectual e artístico, e a valorização das raízes latino-americanas foram essenciais para a cooperação regional.
Além dos esforços governamentais, a participação de organizações da sociedade civil, como escolas de samba e centros culturais, fortaleceu o intercâmbio cultural, promovendo o ensino e a difusão cultural em nível internacional. A mídia também desempenhou um papel fundamental na promoção do tango e do samba, construindo uma imagem positiva das culturas argentina e brasileira.
O intercâmbio cultural entre Argentina e Brasil envolveu uma diversidade de atores sociais, incluindo políticos, intelectuais, artistas e organizações da sociedade civil. Esses atores, imbuídos do ideário americanista de valorização das raízes culturais latino-americanas, contribuíram para o progresso e desenvolvimento mútuo. Essa colaboração nos ensina muito sobre como a arte e a cultura podem ser poderosas ferramentas de união e compreensão mútua entre nações.
São Paulo: O palco da convergência e da reinvenção
A metrópole paulistana, com sua natureza cosmopolita e multicultural, contribuiu muito para o diálogo entre essas expressões artísticas. Nas ruas de São Paulo, quando chegam os fins de tarde, começam a ecoar os ritmos que carregam a essência de povos irmãos.
O tango chegou a São Paulo de forma gradual, primeiro como curiosidade exótica nos salões da elite nos anos 1920, e depois com os fluxos migratórios do Cone Sul nos anos 1950. Sua melancolia sofisticada carrega ecos múltiplos, compostos pela solidão dos gaúchos nas periferias portenhas, a resistência das comunidades afro-argentinas e adaptações de ritmos europeus que imigrantes reinterpretaram nos cortiços de La Boca. A cidade abraçou essa dança, com uma comunidade apaixonada e crescente. Destaques como a Cia Tango e Paixão, que contribui significativamente para a difusão do tango na cidade, e o Tango B’Aires, que oferece aulas, práticas e milongas regulares, são exemplos da vitalidade do tango em São Paulo. Dados do Arquivo Histórico de São Paulo mostram que as primeiras gravações de tango na cidade datam de 1912, pela Casa Edison, e as milongas regulares só surgiriam nos anos 1990, com a onda de imigrantes argentinos após a crise econômica de seu país.
Enquanto isso, nos bairros centrais e periféricos, o samba de gafieira mantém seu gingado inconfundível. Locais como o Clube do Choro de São Paulo e o Espaço Cultural Cachuera são pontos de referência onde a tradição se renova sem perder sua essência. A Secretaria Municipal de Cultura aponta que só na região central existem 32 casas de samba regularmente ativas, frequentadas por um público cada vez mais diverso. A Gafieira Paulista, movimento surgido na década de 1960, teve um papel fundamental na consolidação do samba de gafieira em São Paulo, valorizando a elegância, o respeito e a técnica na dança de salão, e seu legado permanece vivo nos diversos bailes e escolas de dança espalhados pela cidade.
O que verdadeiramente fascina é observar como essas duas manifestações dialogam na paisagem cultural paulistana. Personalidades como Jaime Arôxa, bailarino e coreógrafo que revolucionou o ensino da dança de salão no Brasil, e artistas como Nelson Lima, Márcia Melo, Mário Sérgio, Vanessa Jardim, Luciana Mayumi, entre tantos nomes importantes do tango em São Paulo, contribuíram de forma marcante para o desenvolvimento e popularização dessas danças na cidade.
A paixão compartilhada e o futuro da dança Latino-Americana
As estéticas que ora abordamos, com suas histórias entrelaçadas de marginalidade, resistência e afirmação cultural, muito mais do que danças, são avatares da alma latino-americana. Eles nos lembram que a arte é um veículo sem igual para expressar a complexidade da experiência humana.
A análise comparativa dessas duas danças revela que, apesar de suas diferenças estilísticas e emocionais, elas compartilham uma paixão intrínseca pela expressão, pela conexão e pela celebração da vida. Ambas nasceram das classes populares, conquistaram todos os estratos sociais e se tornaram embaixadoras culturais de seus países, promovendo o diálogo e a compreensão mútua.
Em São Paulo, essa paixão encontra um terreno fértil para crescer e se reinventar, permitindo que evoluam e ganhem características únicas, sem perder sua essência original. A cidade se torna um microcosmo onde a melancolia portenha e a ginga brasileira se encontram, dançam juntas e enriquecem o tecido cultural.
O futuro da dança de salão no Brasil, com eventos como o Dance Open Brasil, mostra-se promissor, unindo tradição e inovação em um espetáculo único de arte e esporte. A contínua valorização e difusão das artes fortalece os laços entre as nações latino-americanas, provando que, na grande milonga da vida, todos nós somos convidados a deixar nossa marca nos salões de baile, celebrando a diversidade e a unidade através do movimento.
A paixão que move o tango e o samba é a mesma paixão que impulsiona a cultura e a identidade de um povo. É a paixão pela vida, pela expressão e pela capacidade de transformar a realidade em arte, um legado que continua a inspirar e a unir corações em todo o continente. A paixão que me move, na dança e na vida, passa pela história que hoje tive a oportunidade de contar.

