COLUNA

Por Pedro Machado Mastrobuono
Presidente da Fundação Memorial da América Latina
Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro
Sem cultura não há povo: identidade, pertencimento e soberania
A Constituição brasileira reconhece a cultura como elemento estruturante da identidade de um povo. Não por acaso, ela a coloca ao lado do território, da natureza, da paisagem, da fauna e da flora. A cultura não é acessório da vida social, nem um setor administrativo entre outros. Ela é fundamento. É o que transforma um espaço habitado em pátria, uma população em povo, uma geografia em pertencimento.
Quando falamos em cultura, falamos de algo anterior ao consenso político e anterior, inclusive, ao próprio Estado. Falamos de hábitos, de ritos, de modos de falar, de cozinhar, de celebrar, de rezar, de narrar a própria origem. Desde os primeiros agrupamentos humanos, o pertencimento não se deu por documentos ou fronteiras formais, mas por marcas simbólicas: pinturas corporais, danças, cantos, alimentos, línguas e orações. É a cultura que define, antropologicamente, quem somos “nós”.
Por isso, é fundamental distinguir dois conceitos que muitas vezes se confundem: povo e população. Um povo é uma construção histórica, simbólica e cultural. Uma população é apenas um contingente demográfico ocupando um território. Sem cultura, não há povo. Há população. E populações, desprovidas de pertencimento, tendem a assistir à história de forma apática, sem se reconhecer como herdeiras nem responsáveis pelo que as antecede.
Cultura tampouco é sinônimo de educação formal. Um diploma pode ampliar horizontes, mas não cria, por si só, enraizamento. Há povos com baixa escolarização formal e altíssima densidade cultural, e sociedades altamente escolarizadas que padecem de profundo desenraizamento. A saudade da terra natal não é apenas saudade de pessoas, é saudade de hábitos, de cheiros, de sabores, de ritmos, de modos de vida. É essa camada profunda da cultura que cria o sentimento de pertencimento e, com ele, a disposição para proteger e defender aquilo que se reconhece como próprio.
Os sinais de ruptura do tecido cultural brasileiro estão à vista. Patrimônios materiais abandonados, prédios históricos em ruínas, sítios arqueológicos desprotegidos, tratados internacionais descumpridos há décadas. Tradições orais e saberes dos povos originários ameaçados pelo esquecimento. Cemitérios depredados, monumentos vilipendiados. Esses fatos não podem ser lidos apenas como vandalismo episódico. Eles revelam algo mais profundo: a ausência de identificação simbólica. Não se cuida daquilo com que não se cria vínculo.
Em diversos países da América do Sul, observamos realidades distintas. Línguas pré-colombianas preservadas e faladas cotidianamente, vestimentas tradicionais integradas à vida contemporânea, cemitérios e sítios históricos tratados como espaços de memória viva. Isso não é sinônimo automático de desenvolvimento econômico, nem resultado exclusivo de maior escolarização. É fruto de políticas públicas consistentes de preservação do patrimônio cultural, material e imaterial, e de uma compreensão clara de que identidade é ativo estratégico.
Quando a identidade cultural se fragiliza, abre-se espaço para que forças externas atuem com maior intensidade. Não se trata de teoria conspiratória, mas de geopolítica. O chamado soft power encontra terreno fértil onde o pertencimento é frágil. Populações que não se reconhecem em sua própria história tendem a consumir narrativas prontas, importadas, muitas vezes dissociadas de sua realidade e de seus interesses. Onde a cultura se enfraquece, a soberania se torna vulnerável.
Essa compreensão esteve no centro do pensamento de Darcy Ribeiro, para quem a cultura não era ornamento, mas projeto de civilização. Darcy compreendia que a América Latina só poderia se afirmar plenamente a partir do reconhecimento de suas matrizes indígenas, africanas e mestiças, e da valorização de suas formas próprias de pensar, criar e existir no mundo. A identidade, para ele, não era prisão ao passado, mas condição para a invenção do futuro.
Essa compreensão da cultura como fundamento do pertencimento e da soberania não é isolada nem circunstancial. Ela atravessa o pensamento antropológico latino-americano ao longo do século 20. Néstor García Canclini mostrou como as identidades culturais na América Latina se constroem em processos híbridos, nos quais tradição e modernidade não se anulam, mas se tensionam permanentemente. Para Canclini, sociedades que não reconhecem essa complexidade tendem a importar modelos culturais prontos, enfraquecendo seus próprios vínculos simbólicos.
Já Rodolfo Kusch foi ainda mais radical ao afirmar que o verdadeiro enraizamento cultural latino-americano não se dá nas abstrações institucionais, mas no chão, no território vivido, nos saberes populares, na religiosidade, na linguagem cotidiana. Para Kusch, quando uma sociedade perde contato com esse “estar” profundo, ela se torna vulnerável a formas externas de dominação simbólica.
No Brasil, Gilberto Freyre já havia demonstrado que a formação cultural do país não pode ser compreendida apenas por parâmetros econômicos ou jurídicos. A casa, a comida, a língua, os afetos, os rituais e as relações cotidianas compõem uma gramática cultural que estrutura o sentimento de pertencimento muito antes de qualquer formalização política. Ignorar essa dimensão é comprometer a própria compreensão do que nos constitui como povo.
É nesse campo de pensamento (que inclui Darcy Ribeiro, Néstor García Canclini, Rodolfo Kusch, Gilberto Freyre e outros tantos intelectuais latino-americanos comprometidos com a ideia de cultura como eixo vibratório) que se insere a reflexão aqui proposta. Não como exercício acadêmico abstrato, mas como alerta sereno e necessário: sociedades que não reconhecem, protegem e transmitem sua herança cultural fragilizam sua capacidade de se afirmar no presente e de projetar o futuro.
Nesse contexto, é preciso reconhecer que a América Latina permanece como um espaço permanentemente disputado. Disputado por interesses econômicos, simbólicos e geopolíticos que operam, muitas vezes, de maneira silenciosa e sofisticada. Assim como um indivíduo despreparado, sem formação mínima para lidar com o mundo financeiro, pode se tornar presa fácil de um sistema que não atua com misericórdia e acabar perdendo um patrimônio herdado ao longo de gerações, também uma sociedade fragilizada em sua identidade cultural pode se tornar vulnerável a narrativas externas, influências hegemônicas e projetos que não dialogam com seus interesses profundos. A perda, nesse caso, não é apenas material. É simbólica, histórica e civilizatória. Defender plenamente um território, suas riquezas e seu futuro exige, antes de tudo, uma identidade consolidada, capaz de reconhecer o que é próprio, discernir o que vem de fora e dialogar sem subordinação.
É nesse espírito que atua a Fundação Memorial da América Latina. O Memorial não é apenas um espaço arquitetônico ou um centro de eventos. É um território simbólico de escuta, de circulação de ideias e de afirmação das culturas latino-americanas. Iniciativas como a criação da cátedra de língua guarani, em parceria com instituições do Paraguai, país em que o guarani é língua oficial e de Estado, apontam para uma política cultural de longo prazo, voltada à preservação linguística, à produção de léxicos, gramáticas e à valorização de patrimônios vivos que atravessam fronteiras nacionais.
A cultura não pode ser reduzida à política de entretenimento. Desde a Roma antiga se conhece a estratégia do pão e circo, capaz de anestesiar populações e afastá-las das questões centrais de poder, território e riqueza. Uma política cultural comprometida com a identidade não distrai, forma. Não anestesia, desperta. Não substitui o pensamento crítico, o estimula.
Este é um chamado, sobretudo às novas gerações. Não um convite ao saudosismo, mas à consciência. Conhecer a própria cultura não é fechar-se ao mundo, é dialogar com ele em condições de igualdade. Identidade não é barreira, é base. Um povo que reconhece sua herança cultural é capaz de reinventá-la, protegê-la e defendê-la com lucidez e emoção. Porque, em última instância, sem cultura não existe povo. Existe apenas população. E o futuro de uma nação começa, sempre, pelo reconhecimento de quem ela é.

