
República Dominicana além das praias
Cônsul-geral em São Paulo, Hanoi Yaquelín Sánchez Paniagua fala sobre identidade, história, cultura e desafios do país caribenho
A República Dominicana é frequentemente associada, no imaginário das pessoas, às praias de águas cristalinas, à música contagiante e ao turismo de resort. Essa imagem, amplamente difundida por campanhas publicitárias e pela indústria do entretenimento, embora sedutora, esconde a complexidade histórica, social e cultural de um país marcado por encontros, conflitos e reinvenções ao longo dos séculos.
Formada pela confluência de povos indígenas, espanhois e populações africanas escravizadas, a nação dominicana construiu uma identidade plural, atravessada por disputas territoriais, processos traumáticos de independência e uma relação permanente com seus vizinhos caribenhos. Compreender esse percurso é fundamental para ir além das paisagens paradisíacas e enxergar o país em sua dimensão humana.
Em visita ao Memorial da América Latina, em São Paulo, a cônsul-geral da República Dominicana no Brasil, Hanoi Yaquelín Sánchez Paniagua, concedeu esta entrevista, na qual compartilha reflexões profundas sobre identidade, história, diversidade cultural, educação, meio ambiente e relações regionais.
A partir de sua experiência como gestora pública, arquiteta e representante diplomática, ela oferece uma leitura sensível e crítica sobre os desafios e as potencialidades do país.
Como você definiria a identidade dominicana?
Para mim, a República Dominicana é um dos países mais multiculturais em termos raciais. Temos um pouco de indígena, dizemos que somos indo-brancos e negros. Somos uma mistura de brancos, negros e indígenas. No início, éramos todos indígenas, vivendo em uma única ilha: La Española. Quando Cristóvão Colombo chega, em 1492, os indígenas passam a ser submetidos a tributos. Eles não eram um povo que não trabalhavam; trabalhavam dentro da lógica que conheciam: pesca, agricultura, o necessário para viver. Não tinham uma estrutura física voltada para a extração de ouro, isso não fazia parte da lógica deles. Ficamos, de certa forma, em um estágio pré-clássico. Quando os espanhois perceberam que os indígenas eram fisicamente mais frágeis, trazem africanos para realizar o trabalho de extração do ouro que desejavam. A partir daí, ocorre a mistura entre indígenas e espanhois, e em menor escala entre indígenas e africanos. Os espanhois exigiam que tudo o que fosse produzido fosse enviado como tributo aos reis.
E como se desenvolve a história do território onde você vive?
No meu território, San Juan de la Maguana, existia o principal cacicado da ilha, o cacicado de Maguana. Ali estava o cacique Caonabo, que se casou com a cacica Anacaona. Eles tiveram uma filha chamada Iguemota, que se casou com um espanhol, com permissão para isso. De certa forma, tivemos ali a primeira mestiça que voltou a viver em La Española. Essa história é longa, e sempre fico pensando em como resumir para não ficar extensa demais, mas são acontecimentos que vão marcando quem somos. Depois vem Mencía, filha de uma espanhola e neta de Anacaona. Quando os espanhois se estabelecem, temos, por exemplo, o segundo maior engenho açucareiro de toda a ilha. É complexo, talvez essa parte seja demais, mas, no fundo, somos como três cordas que se entrelaçam.
Você mencionou o processo de divisão da ilha. Pode explicar como isso acontece historicamente?
Quando os espanhois precisavam levar todos os tributos para a Espanha, os espanhois, indígenas e africanos que já estavam ali começaram a questionar por que tinham que vender tudo apenas para eles. Nesse momento, piratas começam a chegar pela parte oeste da ilha, o que hoje é o Haiti. Eles vinham enviados pela Inglaterra, se estabeleciam ali e passam a comprar as mercadorias que iriam para a Espanha, pagando um preço melhor. Quando os espanhois percebem isso, iniciam o processo conhecido como Devastações de Osório. Os territórios que hoje pertencem ao Haiti e também regiões mais distantes do lado dominicano foram deslocados para áreas mais próximas do que hoje é a capital, para facilitar o controle. Assim, a parte oeste foi sendo abandonada, ocupada por outros grupos, até que acabou sendo cedida à França por meio do Tratado de Versalhes.
Como se estrutura a formação do Haiti a partir desse contexto?
Muitas vezes se fala muito sobre os haitianos, mas quando você compara o Haiti com países africanos, percebe que há diferenças importantes. Para mim, isso tem relação com a forma como se deu a independência deles. No acordo com a França, o Haiti teve que pagar tributos, e acredito que até hoje ainda exista algum tipo de pagamento à França. Esses tributos eram feitos com madeira preciosa, ouro, açúcar, algodão. É um país que foi devastado por isso, porque entregou tudo como forma de pagamento. Por isso, muitos se perguntam por que do lado haitiano a população é majoritariamente negra e do lado dominicano há uma mistura maior. A explicação é que os franceses mantinham grandes latifúndios e continuaram trazendo africanos em grande escala. O Haiti foi a primeira nação livre da América. A liberdade foi negociada economicamente, por meio desses tributos. Mais tarde, Dessalines exigiu mais, pois os franceses haviam prometido permanecer e proteger, o que não aconteceu. Ele então determinou recompensas pela morte de brancos franceses, o que levou à eliminação dessa população. Também indígenas e mulatos acabaram sendo mortos. Assim, o Haiti se consolidou como uma nação negra. Naquele contexto, roubar, queimar, cortar árvores era visto como um ato patriótico, pois era a forma de pagar a independência, uma independência muito cara, que a França nunca ajudou de fato a sustentar.

Como se constrói a relação histórica entre Haiti e República Dominicana?
Nossa relação com o Haiti foi muito dura. Eles ocuparam o território dominicano por cerca de 30 anos. Houve muitas guerras e batalhas. Não sei se é exatamente como os livros contam, mas praticamente vencemos todas. O problema é que essas guerras aconteceram em nosso território. A ilha tem cerca de 71 mil quilômetros quadrados: dois terços, cerca de 48 mil, são hoje a República Dominicana; o outro terço é o Haiti. Culturalmente, quem vive próximo à fronteira, como eu, em San Juan de la Maguana, percebe muitas influências. Dizem que os sanjuaneros são bruxos. Quanto mais você se aproxima da fronteira, mais aparecem elementos da cultura africana e do vodu. No Haiti, dizem que 70% são católicos, 30% protestantes, mas 100% praticam o vodu. Há crenças muito marcadas. Também temos costumes diferentes, inclusive na alimentação. Eles gostam muito de comida apimentada; nós, não. Em momentos importantes, tivemos boas relações comerciais. Dominicanos lutaram pelo Haiti, e haitianos lutaram por nós. Mas, com o tempo, especialmente após a ocupação, as relações se transformaram.
Como você definiria hoje a identidade dominicana?
Somos uma mistura complexa. Hoje se diz que apenas cerca de 15% da população é branca. Dizem que indígenas quase não existem, mas nós acreditamos que isso não é verdade: o indígena está no nosso DNA. Temos muitos negros. Figuras como Trujillo, um ditador extremamente vaidoso, tentaram repovoar o país trazendo brancos, oferecendo terras, casas, vacas. Vieram judeus, libaneses, palestinos. Mas também houve momentos terríveis, como o chamado “massacre do corte”, no rio Massacre, quando muitos haitianos foram mortos. Para compensar isso, Trujillo cedeu parte do território dominicano ao Haiti, e o mapa do país mudou.
Como você descreveria o povo dominicano no cotidiano?
Se há algo que define o dominicano é o sabor, o tempero. É um povo carinhoso, amigável. Tenho um amigo italiano que foi à República Dominicana com a intenção de matar outro italiano que lhe devia dinheiro. No caminho, furou o pneu do carro, e dois homens negros em uma moto apareceram. Ele pensou que seria assaltado ou morto. Mas eles o ajudaram, trocaram o pneu, o levaram para consertar, depois para casa, fizeram café, deram comida. Ele disse: “Deste país eu não vou embora”. Perguntei se ele matou o homem, e ele respondeu que não, que perdoou. Somos trabalhadores, mas temos uma grande deficiência: a educação, não apenas hoje, mas ao longo da história. Quando vejo cidades como Cartagena, com suas muralhas preservadas, penso que éramos muito parecidos. Mas não houve cuidado. Nossas cidades cresceram sem planejamento. Somos uma economia em desenvolvimento, mas a educação ainda é a grande barreira.
Você também mencionou questões sociais relacionadas à educação. Pode aprofundar esse ponto?
Temos problemas sérios, como gravidez na adolescência e violência de gênero, e isso está diretamente ligado à educação. Sei que algumas mulheres não gostam quando falo disso, mas não é um ataque às mulheres. A questão é: como estamos criando homens cada vez mais violentos se somos nós, muitas vezes, que os criamos sozinhas? Quando a mãe está sozinha, ela acaba colocando o menino no papel de “homem da casa”. Isso cria distorções. Se a maioria das crianças é registrada apenas pelas mães e muitos lares são chefiados por mulheres sozinhas, e ainda assim vemos aumento da violência masculina, algo precisa ser revisto como sociedade.
Essa realidade também aparece em outros países da América Latina?
Sim. No Brasil também há violência de gênero, machismo, feminismo, os mesmos conflitos. O homem sempre aprendeu que pode ir embora, ter outra mulher, e isso é aceito. Quando é a mulher que decide sair, isso não é aceito. É aí que a educação precisa começar: ensinar que a mulher também tem o direito de dizer “acabou”.
Como você gostaria que a República Dominicana fosse reconhecida internacionalmente?
Além das praias, pelo coração. Somos um povo de grande coração, servicial por natureza. Onde houver um dominicano, as pessoas vão se lembrar da alegria. Somos barulhentos, falamos com ritmo. Temos muitos ritmos, assim como os brasileiros. Queremos ser conhecidos como um povo solidário, amigo, irmão, sonhador, aberto ao turismo e à economia, com uma população jovem que precisa de oportunidades. Mas também precisamos rever pequenas coisas do cotidiano que transformam a sociedade, como o uso excessivo do celular. Precisamos reaprender a parar, olhar, conversar.
Que outros lugares do país merecem ser mais conhecidos além dos destinos turísticos tradicionais?
Existem muitos lugares que raramente aparecem nas revistas de turismo, mas que são fundamentais. Sempre quis que as pessoas conhecessem, além das praias, as cidades, os bairros, o cotidiano. Que compartilhassem uma refeição simples, conhecessem como as pessoas vivem. Isso também é cultura e não deve nos envergonhar. Claro que é preciso garantir segurança e higiene, mas isso pode ser feito sem apagar essas experiências.
Como a diversidade do interior do país se expressa culturalmente?
Somos uma província ecoturística, com forte presença da agricultura. Há pessoas que nunca viram uma galinha viva ou montaram em um burro. Não sabem o que é acender um fogão a lenha. Tudo isso também é turismo. A República Dominicana é muito mais do que praias.
Sua cidade, San Juan de la Maguana, carrega símbolos culturais específicos. Pode falar sobre isso?
É chamada de “cidade dos bruxos” por causa de Olivorio Mateo, um personagem muito importante. Ele foi morto pelos norte-americanos durante uma invasão. Era visto como um sábio, um curador, alguém que misturava religião e revolução. Falava contra grandes proprietários de terra e contra o capitalismo, e por isso foi considerado uma ameaça. Quando o mataram, exibiram seu corpo para provar que ele não era imortal. Há até um merengue famoso sobre isso. Conhecer essa história também é turismo.
E as manifestações musicais e culturais locais?
Temos muita música além do merengue conhecido. Existem ritmos autóctones, únicos de territórios muito pequenos. O que me interessa é que essas regiões tenham oportunidades e que o turismo ajude a gerar crescimento econômico.
As festas populares também revelam muito sobre o país?
Muito. No campo, existem celebrações como a “noite de vela”, dedicadas a santos. As pessoas passam o dia inteiro juntas, rezando, cantando, dançando, comendo. Há festas para celebrar aniversários de pessoas que já morreram. Nós, dominicanos, celebramos tudo. Qualquer coisa vira motivo de festa.
Além da história e da cultura, quem é você e como sua trajetória influencia esse olhar sobre o país?
Sou arquiteta. Trabalhei em obras e reclamava que cada dia alguém faltava por motivos religiosos ou sociais. Mas isso também retrata nossos povoados. Ao mesmo tempo, temos a graça de ter ritmos que se espalharam pelo mundo, como o merengue, com nomes como Juan Luis Guerra e Johnny Ventura. Hoje vivemos um bom momento de aproximação com o Brasil, e o turismo entre os dois países tem crescido.
Como essa diversidade de sotaques, hábitos e culinária aparece no país?
No Cibao se dança mais o merengue antigo. No oeste, há mais rituais como a noite de vela, o baile de palo, os atabaques. Na gastronomia, temos a “bandeira dominicana”: arroz, feijão e carne. Há o sancocho, o chenchen com chivo, o chacá. São pratos que variam conforme a região. Nas zonas turísticas, o coco é muito presente. Há muitos eixos culturais em um território pequeno.

Por fim, como a República Dominicana lida hoje com a preservação ambiental?
É uma questão central, especialmente por causa do sargaço, ligado ao aquecimento global. Temos parques nacionais protegidos, onde não se pode construir. Somos um único ecossistema com o Haiti, e isso exige cuidado conjunto. O meio ambiente é fundamental porque o turismo é um dos principais setores da economia. Precisamos cuidar das praias e da natureza, não apenas porque é o que vendemos melhor, mas porque é uma realidade bela que precisa ser preservada.

