COLUNA
Perfil-artigo-Pedro-Mastrobuono

Por Pedro Machado Mastrobuono

Presidente da Fundação Memorial da América Latina

Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro

pedro.mastrobuono@memorial.org.br

Quem conta a história da América Latina?

Vivemos um momento singular da história cultural. Nunca antes o acesso a narrativas audiovisuais foi tão amplo, tão imediato e tão global. Hoje, em qualquer sala de estar, um simples controle remoto permite atravessar continentes. Em poucas horas é possível assistir a produções coreanas, espanholas, americanas, escandinavas ou turcas. As plataformas digitais transformaram o mundo em uma imensa vitrine de histórias.

À primeira vista, esse fenômeno parece representar uma democratização inédita da cultura. A circulação de conteúdos ampliou-se de maneira exponencial e, com ela, a possibilidade de conhecer outras sociedades, outras sensibilidades, outros imaginários. No entanto, por trás dessa aparente pluralidade surge uma questão mais profunda, que atravessa silenciosamente o campo da cultura contemporânea. Quem conta a história da América Latina?

A pergunta pode parecer simples, mas carrega implicações profundas. Ao longo da história, a maneira como uma civilização é narrada quase sempre revela mais sobre quem narra do que sobre aquilo que é narrado. A América Latina conhece bem esse processo. Durante séculos, o continente foi descrito, interpretado e frequentemente reduzido a categorias que não nasceram de sua própria experiência histórica.

Hoje, com a expansão das plataformas globais de streaming, essa questão retorna sob novas formas. É verdade que há um crescente interesse internacional por histórias ambientadas na América Latina. Séries, documentários e produções ficcionais ambientadas em nossas cidades e paisagens circulam com intensidade inédita. Mas é preciso perguntar até que ponto essas narrativas expressam a experiência latino-americana a partir de dentro ou se continuam sendo mediadas por filtros externos que moldam a forma como o continente é representado.

Toda narrativa cultural passa inevitavelmente por processos de interpretação. Escolhem-se personagens, enquadramentos, conflitos e símbolos. Decidem-se quais aspectos da realidade serão amplificados e quais permanecerão invisíveis. Quando essas escolhas são feitas a partir de centros culturais externos, frequentemente emerge uma América Latina que corresponde mais às expectativas do olhar estrangeiro do que à complexidade real das sociedades latino-americanas.

Não se trata de negar o valor das produções internacionais, nem de defender qualquer tipo de isolamento cultural. A circulação global de narrativas é um fenômeno irreversível e, em muitos aspectos, extremamente positivo. O verdadeiro desafio está em compreender que a identidade de um continente não pode ser construída apenas por olhares externos. Ela precisa ser narrada também por aqueles que habitam sua própria história.

A América Latina é um território de extraordinária densidade cultural. Nela se cruzam tradições indígenas milenares, matrizes africanas profundas, heranças ibéricas, fluxos migratórios europeus, asiáticos e árabes. Esse mosaico humano produziu formas de sociabilidade, religiosidade, arte e imaginação que não podem ser plenamente compreendidas por meio de categorias simplificadoras.

Quando a narrativa sobre a América Latina nasce de dentro, ela revela nuances que raramente aparecem em interpretações externas. Ela mostra não apenas as tensões sociais e políticas que marcam o continente, mas também sua capacidade histórica de produzir cultura, criatividade e reinvenção. Mostra cidades onde convivem modernidade e memória, comunidades onde tradição e inovação caminham lado a lado, sociedades que, apesar das dificuldades, mantêm uma vitalidade cultural impressionante.

Talvez o grande desafio cultural do nosso tempo seja justamente este. Não apenas participar da circulação global de narrativas, mas garantir que a voz latino-americana esteja presente na construção dessas histórias. Que a América Latina não seja apenas cenário, mas também autora de si mesma.

Instituições culturais têm um papel decisivo nesse processo. Ao promover pesquisa, reflexão e produção artística, elas ajudam a preservar aquilo que nenhuma indústria cultural global pode substituir, a experiência vivida de um povo, sua memória coletiva e sua capacidade de narrar a própria história.

No fundo, a questão não é apenas quem filma a América Latina, quem escreve sobre ela ou quem produz suas séries e documentários. A pergunta mais importante continua sendo outra. Quem tem o direito de interpretar e lograr êxito em mostrar a real essência da alma de um continente?

Responder a essa pergunta talvez seja um dos grandes desafios culturais do século 21.