ENTREVISTA
Quando a cultura ocupa o espaço público
À frente do Centro Cultural do TCU, Elisa Bruno reflete sobre acesso, educação e formas de aproximar as instituições da vida cotidiana
O Memorial da América Latina é um espaço público pensado para o encontro entre cultura e cidadania, tendo na integração entre os povos latino-americanos sua essência. Ao longo de seus 36 anos, tem dialogado com instituições que, a partir da cultura, buscam criar pontes entre o Estado e a sociedade. É a partir desse lugar comum que se insere a conversa com o Centro Cultural do Tribunal de Contas da União (TCU), em Brasília, um equipamento cultural instalado dentro de um órgão público centenário e que utiliza a arte e a educação como formas de aproximação com a população e de reflexão sobre o uso dos recursos públicos.
À frente do Centro Cultural do TCU está Elisa Bruno, diretora do espaço e gestora pública que atua na interface entre cultura, educação e cidadania. O espaço cultural se apresenta como uma porta de entrada menos formal para o Tribunal, promovendo exposições, ações educativas e encontros que ampliam o diálogo com diferentes públicos.
Após o encerramento, neste mês de janeiro, da exposição Línguas africanas que fazem o Brasil, o Centro Cultural do TCU reabre ao público em 11 de fevereiro, com uma nova mostra em preparação. Nesta entrevista, Elisa Bruno fala sobre os desafios de engajar a população em espaços culturais gratuitos, reflete sobre o papel da cultura em ambientes institucionais e discute como a arte pode contribuir para uma relação mais consciente e participativa entre cidadãos e instituições públicas, temas que dialogam diretamente com a atuação do Memorial da América Latina como espaço de cultura e reflexão.
Quais são hoje os principais desafios na gestão de um centro cultural vinculado a um órgão público como o TCU?
O nosso desafio como Centro Cultural é ter uma programação relevante, que contribua com a arte brasileira e que traga a população para junto de nós. Mas, principalmente, que as pessoas saiam dali sensibilizadas sobre a importância dos gastos públicos e da participação cidadã na sociedade. Um desafio muito grande é trabalhar isso com o público infantil. O programa educativo é central para nós. Queremos que as crianças estejam naquele espaço pensando em conjunto, como comunidade: o que eu posso fazer para melhorar o meu entorno? Como qualquer centro cultural, também enfrentamos a dificuldade de atrair o público. Por isso, investimos em uma programação contemporânea, diversa, capaz de dialogar com diferentes públicos.
Como o Centro Cultural trabalha a ideia de pertencimento e de direito à cultura?
A cultura, de forma geral, tem um desafio enorme: fazer com que as pessoas se sintam parte daquele espaço. Muitas vezes elas não saem de casa porque não se sentem no direito de usufruir de um centro cultural. Esse é um papel que assumimos com muita responsabilidade. O educativo trabalha justamente para que as pessoas se sintam em casa, para que se aproximem do cidadão e para que ele reconheça o tribunal, por meio do Centro Cultural, como um espaço seu. A cultura precisa mostrar que é de todos, que é para todos, e que você faz parte daquilo.
Você costuma dizer que cultura e educação não podem estar separadas. Como isso se traduz na prática?
Para mim, cultura e educação são inseparáveis. Elas são um motor de transformação social. É por meio delas que conseguimos trazer a sociedade para um patamar de bem-estar e valorização de si como sujeito inserido no coletivo. Não basta oferecer eventos gratuitos. Se não houver o entendimento de que aquele acesso é para todos, não alcançamos nosso objetivo. No caso do Centro Cultural do TCU, estamos em um espaço de poder, no centro de Brasília. Trabalhamos com escolas públicas, muitas do entorno, com crianças e professores que nunca haviam acessado o centro da cidade. Também recebemos grupos em situação de vulnerabilidade, oferecendo transporte e acolhimento. A mensagem é clara: você pertence a isso. Esse é o nosso grande trabalho enquanto espaço público com um programa educativo atuante.
Brasília costuma ser vista apenas como sede dos poderes. Como você enxerga a cidade para além dessa imagem?
Brasília é uma cidade viva, com crianças, estudantes, trabalhadores, servidores públicos. É uma cidade como qualquer outra. Mas existe uma riqueza cultural que muitas vezes não é reconhecida: música, cinema, o rock nacional, movimentos culturais importantes. Os políticos não são de Brasília, eles ocupam o espaço de poder, mas a cidade é feita por quem vive ali. E é justamente esse olhar que tentamos trazer para o Centro Cultural: quais são os canais que temos para exercer nossa cidadania? Como nos comunicamos com o Estado? Onde buscamos informação? O Centro Cultural atua nesse lugar de mediação, abrindo o espaço para que a sociedade conheça o funcionamento de um grande órgão público e se reconheça nele.
Como as pautas de diversidade, inclusão e acessibilidade atravessam o trabalho do Centro Cultural?
A diversidade começa já na equipe que está na linha de frente do Centro Cultural. Há uma preocupação clara com representatividade. Isso se reflete também na programação, nas exposições e nas ações educativas. A acessibilidade é uma pauta fundamental. Ainda estamos em processo de construção, mas já realizamos ações específicas com grupos de pessoas com deficiência auditiva e visual, o que exigiu preparo, formação e apoio especializado. O retorno desses grupos foi extremamente positivo. Queremos ser capazes de receber as pessoas em suas mais diversas necessidades. É um trabalho contínuo, um grãozinho de areia colocado todos os dias.
Apesar dos desafios do mundo contemporâneo, você se mostra otimista. De onde vem esse otimismo?
Eu sou muito otimista. Como agentes culturais, precisamos olhar para o diferente e atuar nessa transformação. Falo também a partir da minha experiência pessoal. Sou uma mulher negra, servidora pública desde 1990, em um ambiente majoritariamente masculino e branco. Vejo hoje mudanças reais que não existiam no início da minha trajetória. Quando crianças da periferia entram em um espaço de poder e se deparam com mulheres negras ocupando esses lugares, algo muito forte acontece: elas se enxergam ali. Isso é fundamental. A cultura permite essa mudança de olhar, essa visão crítica do mundo e de si mesmo, sempre em grupo, nunca de forma isolada.

