COLUNA
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Por Pedro Machado Mastrobuono

Presidente da Fundação Memorial da América Latina

Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro

pedro.mastrobuono@memorial.org.br

O que não pode desaparecer

A América Latina convive com temas que nunca desaparecem, apenas saem do foco, e exigem políticas públicas que sustentem memória e responsabilidade

 

Há temas que retornam. Não porque tenham sido resolvidos, mas porque nunca foram realmente enfrentados.

Eles emergem em ondas. Tornam-se, por alguns dias ou semanas, o centro do debate público. Produzem comoção, indignação, mobilização. E então, com a mesma velocidade com que surgiram, dissipam-se. Recuam para uma espécie de penumbra social, onde permanecem latentes, à espera do próximo ciclo de visibilidade.

É nesse movimento que se inscrevem algumas das questões mais estruturais de nosso tempo: os fluxos migratórios, as crises humanitárias, os direitos dos povos originários, os conflitos territoriais, as múltiplas formas de deslocamento forçado que atravessam o mundo contemporâneo. Nada disso é episódico. E, no entanto, tudo é frequentemente tratado como se fosse.

Há, aqui, um deslocamento silencioso que merece ser compreendido. O que é estrutural passa a ser percebido como emergência. O que exige continuidade é absorvido pela lógica da urgência. E aquilo que deveria convocar políticas de longo prazo torna-se refém de ciclos curtos de atenção.

A consequência mais profunda desse processo não é apenas política. É também moral. Porque uma sociedade que responde apenas ao que irrompe, e não ao que persiste, corre o risco de perder a capacidade de sustentar vínculos duradouros com a realidade. Passa a viver em um regime de estímulos sucessivos, no qual a memória se fragiliza e a responsabilidade se dissolve.

É precisamente nesse ponto que a política pública revela a sua dimensão mais elevada. A política pública não existe para reagir ao momento. Existe para impedir o esquecimento. Ela é, em sua essência, uma forma institucionalizada de memória. Um dispositivo que transforma aquilo que poderia ser apenas um episódio em compromisso contínuo. Um esforço deliberado de manter aberto, no tempo, aquilo que a sociedade tende a fechar assim que a intensidade da emoção diminui.

No caso das migrações, isso significa reconhecer que não se trata apenas de fluxos que se intensificam em determinados contextos, mas de uma condição constitutiva da história humana. O deslocamento, voluntário ou forçado, não é exceção. É uma das formas mais antigas de organização da vida social.

No caso dos povos originários, o desafio é ainda mais radical. Porque não se trata apenas de garantir direitos no presente, mas de reconhecer uma dívida histórica que atravessa séculos. Trata-se de compreender que o tempo dessas populações não coincide com o tempo curto da política. Que suas territorialidades, seus modos de vida e suas cosmologias não podem ser reduzidos a objetos ocasionais de debate.

Quando esses temas aparecem apenas como urgência, algo essencial se perde. Perde-se a capacidade de reconhecer que estamos diante de questões que estruturam o próprio modo como uma sociedade se compreende.

E talvez seja esse o ponto mais delicado. Porque o esquecimento, nesse caso, não é ausência de informação. É uma forma de organização do olhar.

Sabe-se que os problemas existem. Mas escolhe-se, ainda que de modo não consciente, não sustentá-los no horizonte. Por isso, mais do que produzir respostas imediatas, é necessário produzir permanência.

Permanência de políticas, permanência de instituições, permanência de espaços de escuta e de elaboração. Permanência, sobretudo, de uma ética que recuse a ideia de que aquilo que deixa de ser visível deixa, por isso, de existir.

Há uma diferença decisiva entre reagir e cuidar. Reagir é responder ao impacto. Cuidar é permanecer com o problema, mesmo quando ele já não mobiliza a atenção coletiva.

As grandes políticas públicas, aquelas que de fato transformam a realidade, são construídas nesse segundo regime. Não no da comoção, mas no da continuidade. Não no da emergência, mas no da responsabilidade.

Em um mundo atravessado por fluxos intensos de informação, onde tudo tende a se suceder rapidamente, sustentar a permanência tornou-se, paradoxalmente, um gesto contraintuitivo. Mas talvez seja justamente esse o gesto mais necessário.

Porque há temas que não podem desaparecer. Não porque insistem em retornar, mas porque nunca deveriam ter sido tratados como algo que pudesse, um dia, ser esquecido.

Na América Latina, essa reflexão ganha uma densidade particular. Somos um continente atravessado por deslocamentos, por encontros e desencontros civilizatórios, por permanências invisibilizadas e por urgências reiteradamente mal compreendidas. Aqui, mais do que em muitos outros lugares, o risco do esquecimento não é apenas teórico, é histórico.

Darcy Ribeiro compreendeu isso com rara precisão. Ao pensar a formação de nossos povos, ele recusou a ideia de homogeneidade e afirmou a pluralidade como força civilizatória. Não como problema a ser resolvido, mas como potência a ser reconhecida e cultivada. Em sua leitura, a complexidade social latino-americana não deveria ser simplificada por discursos conjunturais, mas sustentada por projetos de longo alcance.

Talvez por isso sua obra permaneça tão atual. Porque ela nos lembra que não há construção de futuro possível quando a diversidade é tratada como ruído e não como fundamento.

No entanto, quando esses temas são capturados por disputas exclusivamente políticas, algo se distorce. O debate se estreita, os enquadramentos se tornam mais rígidos e, não raro, emerge uma forma sutil de silenciamento. Discursos que não se alinham a determinadas expectativas são descartados, e a complexidade cede lugar à simplificação.

Nesse ambiente, instala-se aquilo que poderíamos chamar de uma compaixão seletiva. Uma sensibilidade que se ativa em determinados contextos, mas que não se sustenta como princípio. Uma empatia que responde mais à lógica da adesão do que à exigência ética. É nesse ponto que a distinção entre política e política pública se torna decisiva.

A política, em seu tempo próprio, responde a conjunturas, a disputas, a ciclos de visibilidade. A política pública, ao contrário, deve transcender essa condição. Ela não pode ser refém da oportunidade. É, ou deveria ser, uma questão de Estado, não de governo.

Porque os problemas que ela enfrenta não desaparecem quando deixam de ser tema de debate. Eles permanecem. E exigem continuidade.

Há, portanto, uma diferença fundamental de temporalidade. Enquanto a política frequentemente se organiza em torno da urgência, a política pública se constrói na duração. Enquanto uma responde ao imediato, a outra se compromete com o que persiste.

E é justamente por isso que o cuidado que ela propõe é de outra natureza. Não se trata de um cuidado que se orienta pela visibilidade, nem que se mede pela repercussão. Trata-se de um cuidado mais amplo, mais silencioso, mais exigente. Um cuidado que se sustenta mesmo quando os holofotes se apagam.

Talvez seja esse o maior desafio do nosso tempo. Aprender a sustentar aquilo que não grita. Permanecer com aquilo que não desaparece, mesmo quando deixa de ser visto.

Porque é nesse gesto, menos visível e mais profundo, que uma sociedade decide, de fato, quem deseja ser.