COLUNA
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João Carlos Corrêa

Diretor de Atividades Culturais da Fundação Memorial da América Latina

Especialista em Gestão Cultural (PUC-Rio) e em Jornalismo Cultural e de Entretenimento (Belas Artes-SP); mestrando em Gestão e Políticas Públicas (IDP-SP) e em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (PROLAM-USP).

Vencer duas vezes: O cinema latino-americano entre o palco e os bastidores

(ou, “quando o palco nem sempre é dos vencedores”)

Às vezes me pergunto se o ‘andar de cima’ do mundo nos vê menores do que realmente somos ou se simplesmente não entende a complexidade do nosso continente. Convenhamos que entre nós também há um certo endeusamento do norte global e uma cicatriz de submissão em relação aos colonizadores, papel que sabemos não foi exclusivo das mãos ibéricas em séculos passados, pois vemos isso na história mais recente da região.  

Por outro lado, é possível que o ano de 2025 tenha ajudado a melhorar essa a imagem através de um setor bem específico da cadeia cultural. O cinema latino-americano voltou ao centro do palco internacional, e o Brasil conduziu esse movimento com uma sequência rara de vitórias que reposicionou nossa percepção pública no circuito global.

Como nem tudo são flores, essa conquista ainda guarda marcas nada sutis de uma luta por respeito que apareceram inclusive na forma como recebemos um prêmio. Neste início de janeiro, enquanto o mundo discutia soberania e direito internacional, “O Agente Secreto” venceu o Critics Choice Awards, como Melhor Filme de Língua Estrangeira . O anúncio e a entrega ocorreram no tapete vermelho, fora do palco principal e antes da transmissão da cerimônia. Sem espaço para discurso, um “uau, obrigado” foi tudo o que o instante permitiu.

A vitória foi especialmente significativa, por coroar uma temporada de prêmios já histórica. O filme venceu em Nova York e em Los Angeles, e figurou entre os cinco internacionais destacados pelo National Board of Review. Ainda assim, o anúncio veio em rito menor do que o reservado ao palco principal. O momento teve gosto de glória, com uma pitada acre de constrangimento, e serve como metáfora dos dias de hoje, em que o cinema latino-americano ganha o jogo, mas é convidado a celebrar nos bastidores. Essa tensão, no entanto, não apaga o brilho de um alinhamento histórico. 

Em 2025, três consagrações internacionais compuseram o que estamos chamando “Trinca de Ouro”. Em fevereiro, “O Último Azul” levou em Berlim o Grande Prêmio do Júri. Em março, “Ainda Estou Aqui” alcançou o ápice simbólico ao vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional, feito inédito que encerrou um jejum histórico do Brasil na categoria. Em maio, Cannes reconheceu “O Agente Secreto”, com o prêmio de Melhor Direção para Kleber Mendonça Filho e de Melhor Ator para Wagner Moura.

Esse alinhamento entre Berlim, Cannes e a Academia funcionou como um selo de qualidade para o cinema brasileiro na escala global. Foi uma safra longamente cultivada, com maturidade estética, risco criativo e capacidade industrial. Também deixou claro o valor de políticas de fomento, de redes de formação e de um ecossistema que, apesar de às vezes instável, aprendeu a disputar espaço com padrões internacionais de excelência.

Vale dizer que a cena que vivemos não nasceu do nada. Em 1962, “O Pagador de Promessas” conquistou a Palma de Ouro em Cannes, abrindo portas e criando expectativas na indústria. Em 1998, “Central do Brasil” recebeu o Urso de Ouro em Berlim, e Fernanda Montenegro foi premiada com o Urso de Prata de Melhor Atriz. Em 1999, ela chegou ao Oscar como indicada a Melhor Atriz pelo mesmo “Central do Brasil”, lembrança de que o talento brasileiro já pisou no tapete vermelho da Academia antes de ser plenamente reconhecido.

A consagração de 2025 também é uma história de presença cênica. A vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro, por “Ainda Estou Aqui”, conecta duas gerações de talento e reafirma que a excelência brasileira no cinema já pode ser considerada tradição. A performance de Wagner Moura, celebrada em Cannes, reforça essa mesma potência expressiva, fugindo do caricatural. Em ambos os casos, o reconhecimento vai além do brilho individual e joga luz ao potencial artístico que hoje sustenta o cinema brasileiro, com diretores tendo à disposição elencos que dão densidade cênica e mantém a dimensão humana no conjunto da obra.

É importante dizer que essa força brasileira dialoga com um movimento regional que já vinha ganhando espaço. A Argentina firmou presença histórica com títulos vencedores e com uma dramaturgia de alta qualidade, enquanto o México consolidou projeção mundial que inclui ‘Roma’, e ampliou o repertório de temas e linguagens. O Chile também confirmou sua maturidade com ‘Uma Mulher Fantástica’. Todo esse percurso coletivo preparou o terreno para que um novo ciclo fosse lido como fenômeno continental, e não como exceção episódica.

A América Latina e o Caribe, quando se vêem no cinema, reconhecem um repertório comum de tensões e esperanças. Memória social, desigualdade e disputas por dignidade reaparecem como perguntas, sem que isso pareça panfletário. O resultado é um conjunto de obras que conversam entre si, ainda que partam de realidades nacionais distintas. O Festival de Havana, por exemplo, segue funcionando como instância de consagração e circulação simbólica da região, e incluiu em sua lista de premiados recentes filmes como “O Agente Secreto” e “Un Poeta”, reafirmando a vitalidade do circuito latino-americano.

Há um dado decisivo nessa história. Cada prêmio amplia o chamado soft power da região, mas o que está em disputa é soberania narrativa. Quando o continente apresenta ao mundo histórias complexas, capazes de furar estereótipos e ressignificar narrativas em escala planetária, ele reivindica o direito de ser interpretado por si mesmo. Para que esse ciclo não seja um episódio passageiro, o audiovisual precisa ser sempre tratado como compromisso público duradouro, com responsabilidade compartilhada entre Estado, sociedade e mercado, sem submeter a criação às oscilações do humor político.

É justamente aí que o episódio do Critics Choice cobra um preço alto. A glória existe, mas o tratamento dispensado nos diz muito sobre como ela ainda pode ser apagada, como se o palco fosse concessão e não consequência do mérito. Sem sustentação contínua, o que hoje parece virada histórica tende a virar exceção. Vencer duas vezes, no fim, não se trata somente de ganhar prêmios, mas também do direito de não ter de pedir licença para brilhar.