COLUNA

João Carlos Corrêa
Diretor de Atividades Culturais da Fundação Memorial da América Latina
Especialista em Gestão Cultural (PUC-Rio) e em Jornalismo Cultural e de Entretenimento (Belas Artes-SP); mestrando em Gestão e Políticas Públicas (IDP-SP) e em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (PROLAM-USP).
Cheque no rei: a pressa de Bruxelas e o valor estratégico da América do Sul
Depois de quase 26 anos, a União Europeia destravou o acordo com o Mercosul. A pergunta que fica no ar é o que a região ganha, e o que pode perder, num mundo disputado por China e Estados Unidos
Finalmente, o Conselho da União Europeia aprovou a assinatura do pacto UE-Mercosul e anunciou a cerimônia para este sábado, 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai. A decisão passou por maioria qualificada, com 21 países a favor, cinco contra e uma abstenção. França, Polônia, Hungria, Áustria e Irlanda votaram contra, e a Bélgica se absteve. A França perdeu, pelo menos por enquanto. O Parlamento Europeu ainda precisa aprovar o texto, e a disputa política continuará, com agricultores e ambientalistas pressionando em várias capitais.

A questão que merece nossa atenção é o entendimento do porquê dessa costura política neste momento. Por que pressa agora, depois de tanto tempo? A resposta deixa o campo comercial quando entendemos que o jogo real está em um tabuleiro maior, no deslocamento do centro de gravidade da economia global e na disputa por influência sobre as rotas, os padrões e as garantias do século 21.
A Europa negociou conosco por décadas, sem sair do lugar, enquanto a China avançava silenciosa e consistentemente. Em 2000, o comércio China-América Latina era pequeno, quase periférico. Em 2024, superou US$ 500 bilhões. O salto, além do numérico, redesenhou a distribuição do poder, o que pode ser percebido em nosso país com maior nitidez. No acumulado daquele ano, a China respondeu por cerca de 28,6% das exportações brasileiras, enquanto a União Europeia ficou em torno de 14,4%, e os Estados Unidos, 11,7%. Um cliente com esse peso não devia ter passado despercebido por tanto tempo, e isso não é uma crítica. Jogamos o jogo com quem quis jogar conosco.
Importante ver também que não se trata apenas de comprar e vender, mas de operar infraestrutura, de ocupar espaço tecnológico e de consolidar dependências de toda espécie. Em novembro de 2024, a inauguração do porto de Chancay, no Peru, simbolizou esse movimento de forma notável. Um megaporto projetado para redesenhar fluxos no Pacífico, aproximar a costa sul-americana dos mercados asiáticos e fixar presença chinesa em um ativo estratégico.
Agora, nos parece que a União Europeia entendeu que o tempo virou contra ela. O protecionismo norte-americano voltou a ditar a temperatura do comércio internacional, com tarifas amplas e uma escalada particularmente agressiva contra a China. Ficou muito claro para Bruxelas que se a Europa não ampliar mercados e não reduzir vulnerabilidades vai ficar comprimida entre dois gigantes, sem margem industrial e sem margem geopolítica.
Nesse contexto, o relatório Draghi sobre competitividade europeia tem funcionado como roteiro de uma boa estratégia. Ele insiste em investimentos em escala, em política industrial e em “diplomacia econômica” para garantir cadeias, energia e matérias-primas críticas, além de recompor capacidade de negociação em um mundo de blocos. A América Latina, e em especial a América do Sul, aparece como ativo óbvio nesse desenho, por recursos, por escala de mercado e por potencial de diversificação.
Outro detalhe que não pode passar despercebido é que a América do Sul ainda não é um território plenamente fechado pela órbita chinesa. O Brasil não aderiu formalmente à Belt and Road Initiative, a iniciativa global de infraestrutura e conectividade lançada por Pequim em 2013, embora busque “sinergias” com projetos chineses. A Argentina assinou a adesão em 2022, mas isso não transforma automaticamente toda a região em uma extensão de uma só estratégia. México e Brasil, somados à Argentina, ainda em diálogo, representam massa crítica suficiente para manter o jogo aberto, desde que haja direção política e projetos nacionais consistentes.
E, afinal, o que nós ganhamos com o acordo UE-Mercosul? Há ganhos evidentes e riscos que não podem ser desconsiderados. Do lado do Mercosul, o texto tende a ampliar acesso para produtos agroindustriais e alguns itens estratégicos, o que pode ser traduzido em receita, empregos e competitividade para cadeias já consolidadas. Do lado europeu, abre-se mercado para bens industriais, tecnologia, fármacos, máquinas e veículos, com potencial de baratear investimentos e elevar produtividade. Se a lógica for apenas exportar commodities com pouco processamento e importar bens de alto valor agregado, o arranjo melhora fluxo e piora estrutura.
Entendo que para nós o ganho real ocorre se houver política industrial, inovação, adensamento de cadeias, rastreabilidade e agregação de valor, garantindo assim um instrumento de soberania econômica.
A própria arquitetura europeia prevê um desenho com ênfase em padrões, salvaguardas e compromissos de desenvolvimento sustentável, incluindo referências a clima e governança. Isso tem conteúdo legítimo e guarda uma função estratégica. Basicamente, a Europa está tentando fixar as regras do jogo num momento em que sua influência relativa encolhe, ou seja, não se trata só de abrir tarifas. No fim das contas, ninguém aqui é ingênuo a ponto de não perceber o temor da Europa de perder a América do Sul como espaço de influência diante da China e de um mundo mais protecionista.
Estamos com o mando do jogo, mas se também não escrevermos a nossa estratégia, alguém escreverá por nós. O acordo só será legítimo para o Mercosul se vier amarrado a investimento produtivo e transferência tecnológica com metas verificáveis e salvaguardas que protejam emprego e capacidade industrial na região.
Aí, sim, cheque no rei.

