

Por Pedro Machado Mastrobuono
Presidente da Fundação Memorial da América Latina
Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro
O novo paradoxo alimentar da América Latina

Há dados que, à primeira vista, parecem confirmar um avanço civilizatório. A América Latina, historicamente marcada por desigualdades profundas, conseguiu, ao longo das últimas décadas, reduzir de forma significativa os índices mais agudos de fome. Trata-se de uma conquista que não deve ser subestimada. Pela primeira vez em muito tempo, a ausência absoluta de alimento deixou de ser o traço dominante de amplas parcelas da população.
Mas, como tantas vezes ocorre, o avanço de um problema revela a emergência de outro, o que hoje se desenha no continente não é mais a fome em seu sentido clássico, mas algo mais silencioso e, por isso mesmo, mais difícil de enfrentar, a dificuldade crescente de acesso a uma alimentação de qualidade. Em uma região que figura entre as maiores produtoras de alimentos do mundo, comer bem, no sentido pleno da palavra, tornou-se progressivamente mais caro, mais restrito e, em muitos casos, mais distante.
Esse deslocamento é revelador.
Durante muito tempo, o debate sobre alimentação esteve concentrado na quantidade. Produzir mais, distribuir melhor, garantir o mínimo necessário para a sobrevivência. Esse esforço, em alguma medida, produziu resultados. Mas ele não esgota a questão. Porque alimentar-se não é apenas ingerir calorias. É também um ato cultural, social e simbólico. É uma forma de relação com o território, com a memória e com o próprio corpo.
Quando a qualidade da alimentação se deteriora, mesmo em contextos de abundância produtiva, algo mais profundo está em jogo.
Nesse ponto, talvez seja necessário retornar a um elemento que, embora central à formação da América Latina, permanece paradoxalmente invisível no debate contemporâneo: a mandioca. Comprovadamente pré-colombiana, cultivada há milênios na Amazônia, estruturante das dietas indígenas e afrodescendentes, eixo alimentar de vastas regiões do continente, a mandioca representa uma das mais antigas e resilientes formas de organização da alimentação na América tropical.
No Brasil, sua produção atravessa séculos e territórios, do sul do Amazonas ao estado do Pará, que, segundo o IBGE, produz cerca de 4 milhões de toneladas por ano, sendo o maior produtor do país. Em escala nacional, o Brasil gira em torno de 17 a 20 milhões de toneladas anuais. E, no entanto, esse alimento fundamental não ocupa o lugar simbólico e econômico que sua importância sugeriria. Não integra, de maneira significativa, as grandes cadeias globais de commodities. Não é objeto de disputa nos mercados internacionais. Não aparece como índice de poder econômico.
E, no entanto, sustenta.
Esse contraste revela algo essencial. Há uma diferença profunda entre aquilo que alimenta e aquilo que é valorizado economicamente como alimento. A mandioca, nesse sentido, encarna uma espécie de paradoxo silencioso, ela pertence ao campo da vida, mas não ao campo da visibilidade econômica global. Ela estrutura culturas, mas não organiza mercados.
Enquanto isso, alimentos que circulam nas grandes cadeias internacionais definem preços, políticas e prioridades. E, nesse deslocamento, aquilo que é mais próximo, mais enraizado e mais culturalmente significativo passa a ocupar uma posição secundária.
O resultado é uma reorganização das possibilidades alimentares que não se dá apenas por escassez, mas por hierarquização.
Alimentos frescos, tradicionais e culturalmente densos tornam-se mais caros ou menos acessíveis. Produtos ultraprocessados, por sua vez, ganham espaço, não por preferência, mas por viabilidade econômica. O tempo necessário para preparar alimentos se reduz. A experiência alimentar se simplifica. E, pouco a pouco, aquilo que sustentava não apenas o corpo, mas também a cultura, vai sendo substituído.
Não se trata apenas de nutrição.
Trata-se de identidade.
A América Latina, que sempre foi pensada a partir de suas carências, começa a revelar um outro tipo de problema. Não mais apenas a falta de alimentos, mas a dificuldade de preservar, no interior de uma economia globalizada, formas de alimentação que carregam memória, pertencimento e saber acumulado.
A mandioca, nesse contexto, não é apenas um alimento. É um símbolo. Um testemunho de que há sistemas alimentares inteiros que não se organizam segundo a lógica da exportação, da valorização financeira ou da visibilidade internacional, mas segundo uma lógica de sustentação da vida.
E talvez seja justamente isso que esteja em risco.
Porque, quando a alimentação se reduz a um problema de custo e acesso, aquilo que não se traduz facilmente em valor de mercado tende a desaparecer do horizonte de possibilidades. E, com ele, desaparecem também formas de conhecimento, de convivência e de relação com o território.
Nesse sentido, o novo desafio latino-americano não é apenas garantir que haja alimento suficiente.
É garantir que aquilo que alimenta continue existindo como possibilidade real.
Entre a fartura e a escassez, o que está em jogo não é apenas o que se come, mas aquilo que uma sociedade decide preservar.
E talvez o traço mais inquietante do nosso tempo seja este, a abundância pode coexistir com a perda.
Não apenas da qualidade da alimentação.
Mas do sentido que ela carrega.


