Vallandro Keating, construtor de passagens
Homenagem ao arquiteto, pintor, desenhista e professor cuja arte embeleza o Memorial
Por Ciro Pirondi

Obra de Vallandro Keating guarda a entrada do prédio da administração do Memorial. Ela convida quem passa a uma festa ou manifestação popular
Se é verdade que o desenho é um nexo de ligação entre o pensamento e a realidade, Vallandro Keating foi um exímio construtor desta ligação através de seus desenhos.
O desenho carrega um conteúdo extraordinário, onde a realidade e a história das artes e da arquitetura se refletem. Ele nasceu antes da nossa linguagem oral, no grafismo paleolítico. Desde o nosso pensamento mais primitivo até nossa ciência contemporânea ele, o desenho, tem se demonstrado a linguagem mais competente. Seja no belo desenho em forma helicoidal do genoma humano, por exemplo, seja nas constelações de Joan Miró.
Professor generoso da Escola da Cidade, arquiteto, artista gráfico, desenhista e pintor, Luiz Antonio Vallandro Keating faleceu em 5 de setembro de 2023, aos 83 anos, e deixou um vazio.
Conheci Vallandro pelas mãos de Fábio Penteado, um dos mestres da arquitetura brasileira do século XX. Íamos almoçar no Parreirinha da Rua General Jardim, no centro de São Paulo. Vallandro e Fábio eram inseparáveis nos concursos e nas perspectivas, que anos depois viriam a compor o belo livro das obras de Fábio.
Quando iniciamos a Escola da Cidade, sonhávamos em tê-lo como professor. Fomos falar com ele que, com sua permanente generosidade, logo aceitou nosso convite. Paulo Von Poser e Carla Caffé ficaram responsáveis pelo chamado desenho sensível e Vespaziano Puntoni e Vallandro pelos desenhos técnicos e perspectivas. Vallandro nos fez ver no desenho não só sua importância estética e artística, mas como um instrumento de compreensão do mundo para realizar infinitas variedades e combinações, ligadas aos mais diversos projetos civilizatórios.
Foram alguns anos de convívio, em que ele sempre demonstrou entusiasmo e extrema competência com a educação e formação dos estudantes, bem como com a construção da Escola que se iniciava. Uma tarde nos presenteou com um pequeno boneco de um livro que havia criado em uma viagem com um seu amigo na FAU/USP: Chico Buarque fez os textos e ele os desenhos, uma beleza que pretendemos publicar.
Durante a obra do Memorial da América Latina, Vallandro estava sempre em companhia de Cecilia Scharlach, arquiteta responsável pela obra. Oscar Niemeyer tinha profunda admiração por ele, a quem pediu duas obras para o novo espaço em construção: o conjunto de painéis (750 X 250 cm), sem título, em tinta acrílica sobre tela, já mencionado, e o quadro Mundos novos (295 X 300 cm), de mesma técnica, que olha melancolicamente o auditório do antigo Parlamento Latino-americano.
Seu trabalho está presente e confunde-se com a produção da arquitetura, principalmente paulista, dos últimos 50 anos. Todos os mestres desse período usaram ou gostariam de ter em sua produção um desenho dele.
A palavra desenho está vinculada a desígnio, ambos de confundem: le nos ajuda a ter domínio sobre a nossa ação no mundo, de influir em nossa capacidade de dar rumo a nosso viver.
Para definir o sentido e o desejo expresso no trabalho do arquiteto Vallandro, uso das palavras de outro grande professor, Flavio Motta:
“… na medida em que uma sociedade realiza suas condições humanísticas de viver, o desenho se manifesta mais preciso e dinâmico em seu significado. Vale dizer que, por meio do desenho, podemos identificar o projeto social. E com ele encontraremos a linguagem adequada para conduzir a emancipação humana”.
Nestes tempos em que o desenho digital tem sido a única forma da expressão gráfica arquitetônica, Vallandro e seus desenhos nos fazem falta.

“Por sua localização é um painel externo; abre-se para a grande e generosa Praça do Memorial e a avenida. Situado no térreo do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, é composto por 4 telas de 1,88 x 2.50 m, pintadas em técnica mista (resina acrílica, pastel seco e grafite) em tons de cinza e branco. Não se trata de um quadro na parede, nem de um objeto estético a ser contemplado à distância. A obra convida à participação: não se fecha em si nos limites de sua moldura. Não há moldura. Está integrada à bela arquitetura do edifício. O assunto é o homem latino-americano que luta por sua liberdade
e autonomia”. Vallandro Keating no livro Integração das Artes (Memorial, 1990, p. 70).
Ciro Pirondi, arquiteto e urbanista, é diretor da Escola da Cidade e diretor executivo da Fundação Oscar Niemeyer
Este texto faz parte da edição física da revista Nossa América nº64

