Um espaço de encontro e reflexão
Pedro Mastrobuono, diretor-presidente do Memorial, relembra os primeiros contatos com Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro e ressalta as realizações e os planos para o futuro da instituição que se tornou símbolo maior da integração dos povos latino-americanos

Inicialmente, gostaria de saber sobre sua relação com o tema da integração latino-americana e com o próprio Memorial da América Latina antes de ser presidente. Lembra da sensação quando pisou pela primeira vez no conjunto arquitetônico criado por Oscar Niemeyer?
Minha primeira relação com o Memorial da América Latina ocorreu quando trabalhei como assessor técnico procurador no Tribunal de Contas do Estado de Sã
o Paulo (TCE-SP) por sete anos. Naquela época, o Tribunal analisava as contas do governador Orestes Quércia, e a construção do Memorial gerava intensas discussões nos corredores da instituição. Como o terreno originalmente pertencia ao Metrô, havia certa confusão sobre o que exatamente estava sendo construído, com muitos acreditando que as obras eram relativas à estação de metrô adjacente ao Tribunal. Foi necessário dissecar e explicar o conceito do Memorial da América Latina, uma instituição que nascia com objetivos culturais, sociais e políticos muito específicos, para que o órgão de controle pudesse avaliar adequadamente as contas de construção e edificação. Este foi meu primeiro contato com a gênese do Memorial, mediado pelo trabalho no Tribunal.
O segundo aspecto que me conecta ao tema da integração latino-americana é pessoal: morei por quase sete anos em Lima, no Peru, com minha família. Meu pai ocupava um cargo vitalício na Junta do Acordo de Cartagena, uma das primeiras iniciativas de integração sul-americana, focada em questões tarifárias e na promoção do comércio comum entre os países da região. Cresci ouvindo discussões sobre a integração latino-americana em casa, e esse tema, profundamente enraizado na minha história pessoal, moldou minha percepção sobre a importância de projetos como o Memorial da América Latina, que representa simbolicamente essa busca por união.
Um dos aspectos da genialidade de Oscar Niemeyer é a forma como ele incorpora a obra de arte na arquitetura. Gostaria que o senhor falasse dessa relação (obra de arte/arquitetura) no Memorial da América Latina.
Tive o privilégio de conhecer Oscar Niemeyer levado pelas mãos do meu pai, em encontros memoráveis no Hotel Ca’Doro, em São Paulo, onde ele gostava de almoçar e saborear o típico prato italiano bollito. Nessas ocasiões, tive a oportunidade de ouvir relatos fascinantes sobre sua visão de mundo e sua colaboração com líderes como Juscelino Kubitschek. Em uma dessas conversas, foi mencionado que desde a concepção de Brasília, a intenção era transmitir ao mundo que o Brasil era um país onde o processo decisório da nação estava intimamente ligado à valorização da arte e da cultura. Lembro-me de uma história contada pelo escultor Bruno Giorgi, também amigo do Alfredo Volpi, na qual ele relatava um diálogo com Juscelino e Niemeyer. Bruno expressava sua visão de que Brasília se tornaria uma futura Atenas, um símbolo de um povo que une decisões políticas à sua expressão artística e cultural.
Essa mesma filosofia está presente no Memorial da América Latina. Niemeyer concebeu o Memorial como um espaço onde não apenas os futuros do Brasil, mas também os desafios e as esperanças compartilhados pelos povos latino-americanos seriam debatidos, sempre com a arte e a cultura ocupando um papel central. Quem observa o Memorial percebe semelhanças claras com Brasília, especialmente na relação entre os espaços de decisão e os elementos artísticos. O Salão de Atos Tiradentes, por exemplo, com sua grande mesa de negociações bilaterais, conecta-se a um parlatório que se abre para um espelho d’água, ladeado pela imponente Praça Cívica, com capacidade para 20 mil pessoas. Esse arranjo remete à Praça dos Três Poderes em Brasília, com seu parlatório no Palácio do Planalto, cercado pelo espelho d’água e edifícios que também abrigam obras de arte.
Há ainda um detalhe simbólico e poético: o espelho d’água do Memorial da América Latina abriga uma escultura de Bruno Giorgi, o mesmo artista cuja obra Meteoro está no espelho d’água do Itamaraty, em Brasília. Esses elementos são testemunhos da genialidade de Niemeyer, que uniu arquitetura, arte e cultura em um espaço concebido para integrar povos e promover reflexões.
Sei que o senhor é um estudioso e um admirador de Darcy Ribeiro, esse “inventor de instituições”. Gostaria que o senhor falasse do legado do antropólogo para o Memorial da América Latina.
Minha admiração por Darcy Ribeiro é profunda e tem raízes tanto familiares quanto profissionais. Durante o governo do presidente João Goulart, meu pai, Marco Antônio Mastrobuono, desempenhou o papel de chefe de gabinete do ministro Expedito Machado na pasta de Viação e Obras Públicas. Ele era engenheiro civil especializado em transportes de massa e professor da Escola Politécnica da USP, reconhecido por sua expertise no setor. Quando o ministro deixou o cargo, meu pai assumiu interinamente o ministério, tornando-se, aos 28 anos, um dos mais jovens a ocupar tal posição na história da República. Nesse mesmo governo, Darcy Ribeiro também exercia um papel de destaque, compartilhando a visão de um Brasil comprometido com a integração e o progresso social.
Com o início do período militar de 1964, Darcy foi exilado e viveu em países como Uruguai, Venezuela, Chile e Peru. Durante esse período, minha família morava em Lima, no Peru, em função do trabalho de meu pai na Junta do Acordo de Cartagena, uma iniciativa pioneira de integração sul-americana. Lembro-me de uma visita de Darcy à nossa casa quando eu era criança. Ele era uma figura fascinante, com sua fala rápida e apaixonada, que marcava profundamente todos ao seu redor, até mesmo uma criança como eu.
Nos anos 1980, Darcy idealizou os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), popularmente conhecidos como “Brizolões” no governo de Leonel Brizola. Esses centros revolucionaram a educação no Brasil, oferecendo ensino integral e acesso à cultura para crianças de comunidades vulneráveis. Mais do que isso, os CIEPs tornaram-se modelo para outras iniciativas na América Latina. Medellín, na Colômbia, por exemplo, utilizou conceitos semelhantes para reverter um cenário de violência extrema, investindo em educação, cultura e integração social, o que resultou em uma significativa redução da violência e no desenvolvimento da paz social.
O Memorial da América Latina é uma extensão do legado visionário de Darcy Ribeiro. Concebido por ele e projetado por Oscar Niemeyer, o Memorial simboliza a integração dos povos latino-americanos, promovendo o diálogo cultural e celebrando nossas identidades compartilhadas. A presença da arte como parte da arquitetura, exemplificada pela escultura de Bruno Giorgi no espelho d’água, reflete a crença de Darcy na conexão entre cultura, educação e transformação social. O Memorial é, acima de tudo, um espaço de encontro e reflexão, onde a diversidade e os desafios da América Latina podem ser discutidos à luz de uma visão de união e progresso.
Quando o senhor assumiu a presidência do Memorial, como o encontrou e desde então quais foram as principais medidas para ajustá-lo à sua diretriz? Quais projetos o senhor gostaria de destacar nestes quase dois anos de gestão?
Minha trajetória sempre esteve profundamente vinculada ao campo da museologia. Tive a honra de presidir várias instituições relevantes no setor, como o Instituto de Arte Contemporânea (IAC), ligado à USP, e a Associação dos Amigos do Museu de Arte Contemporânea (AAMAC), também da USP. Fui sócio fundador e presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna (IAVAM) e atuei como conselheiro e diretor do Projeto Leonilson, responsável pelo catálogo raisonné do artista. Além disso, fui o segundo presidente mais longevo do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), uma autarquia federal responsável pela política pública para o campo museal no Brasil, e sou membro efetivo do ICOM, braço da UNESCO voltado à museologia.
Quando assumi a presidência da Fundação Memorial da América Latina, meu primeiro olhar se voltou para o Pavilhão da Criatividade, um museu extraordinário com mais de 4 mil obras de arte popular latino-americana, idealizado por Darcy Ribeiro. No entanto, percebi fragilidades significativas nos registros e no inventário do acervo permanente da instituição, que comprometiam sua conservação e gestão estratégica.
A primeira medida foi buscar financiamento para estruturar uma equipe de museologia e desenvolver um projeto de catalogação sistemática do acervo. Consegui, junto ao CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina), um financiamento de 100 mil dólares para esse projeto, que já está em andamento. O objetivo é realizar um levantamento detalhado de tudo o que compõe o acervo, incluindo o estado de conservação das obras e as necessidades específicas de armazenamento e preservação.
Esse trabalho nos permite planejar de forma estratégica a conservação e a ampliação do acervo. Com a catalogação, podemos identificar, por exemplo, o quanto precisamos investir em mapotecas, unidades de armazenamento com controle de umidade ou iluminação, e quais peças estão aptas para exposição ou necessitam de restauração. É possível mapear as condições de conservação de materiais como tecidos, papéis e outros suportes, garantindo que o acervo esteja em condições adequadas para futuras parcerias, como empréstimos e exposições temporárias em outras instituições culturais.
Essa política de conservação é essencial não apenas para preservar o legado do Memorial, mas também para fortalecer o diálogo com outras instituições e integrar o Memorial em redes de cooperação cultural. Esse projeto de catalogação e a reestruturação do Pavilhão da Criatividade são algumas das ações que refletem meu compromisso com o fortalecimento da instituição e com a valorização do patrimônio cultural latino-americano.
Poderia me falar sobre os planos concretos para o futuro do Memorial e sobre os objetivos de longo prazo e até, por que não, sobre os seus sonhos para o Memorial?
Como gestor público, meus planos para o Memorial da América Latina incluem organizar e fortalecer diversos setores da instituição, começando pela regularização de sua documentação. Minha experiência como gestor cultural no campo da museologia e como ex-integrante de órgãos de controle de gastos públicos tem me proporcionado uma visão abrangente das necessidades estruturais do Memorial.
Um ponto crítico que estamos abordando é a situação dos terrenos do Memorial, que até hoje não estão registrados no nome da Fundação Memorial da América Latina. Apesar de constarem nas matrículas como futuras doações, as propriedades ainda pertencem formalmente à empresa do Metrô e à CPTM. Por meio de uma série de reuniões e negociações, estamos avançando significativamente para formalizar essa transferência de propriedade, algo essencial para garantir maior autonomia administrativa e flexibilidade na gestão dos espaços. Essa regularização permitirá que futuras gestões tenham maior capacidade de desenvolver projetos estratégicos.
Outro plano importante é preparar o Memorial para pleitos internacionais, como sua candidatura a Patrimônio da Humanidade. Nosso objetivo não se limita ao reconhecimento da arquitetura icônica projetada por Oscar Niemeyer, mas também inclui o aspecto de “Memória da Humanidade” em função da relevância cultural da nossa biblioteca. Com mais de 50 mil itens, sendo pelo menos 7 mil deles raríssimos, a biblioteca do Memorial é um tesouro inestimável da produção literária latino-americana. Para que esses objetivos sejam alcançados, estamos avançando rapidamente na organização documental e estrutural da instituição.
Minha meta é deixar o Memorial da América Latina completamente preparado, atualizado e fortalecido, de modo que o próximo gestor encontre uma fundação com sua parte documental regularizada, sua autonomia assegurada e sua relevância cultural internacionalmente reconhecida. Esse é um sonho que estamos transformando em realidade, passo a passo, para que o Memorial continue a ser um símbolo de integração e de celebração da diversidade latino-americana.
Como o senhor vê a América Latina hoje? A integração econômica, política e cultural ainda é um objetivo a ser seguido ou o mundo mudou muito?
Eu sonho com uma Fundação Memorial da América Latina ocupando novamente o espaço de protagonismo que teve em seu momento de gênese. Nos primeiros anos da instituição, o Memorial abrigou o Parlamento Latino-Americano (Parlatino), uma organização internacional que debate questões fundamentais de integração e relacionamento entre os países da região. A importância do Memorial era tamanha que o Itamaraty designou diplomatas residentes no próprio complexo, garantindo que todas as conversas bilaterais e multilaterais fossem monitoradas e respaldadas pelo governo brasileiro. Durante esse período, o Memorial também sediava uma organização internacional equivalente ao Inmetro, simbolizando sua relevância como ponto de encontro das lideranças latino-americanas.
Houve um tempo em que qualquer chefe de Estado latino-americano que visitasse o Brasil era recebido no Memorial, muitas vezes pelo próprio presidente da República. Esse protagonismo, que marcou os primeiros anos da instituição, é o que buscamos resgatar na atual gestão. Estamos reaproximando o Memorial dos 18 corpos consulares da América Latina e promovendo um ambiente de diálogos bilaterais e multilaterais mais intensos. Além disso, a Cátedra UNESCO, que funciona no Memorial por meio do nosso Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (CBAL), está passando por uma revitalização, com um aumento significativo no número de bolsas, pesquisadores e projetos acadêmicos.
A integração através da educação foi uma preocupação central de Darcy Ribeiro, e esse é um princípio que norteia nossa gestão. Como pós-doutor em antropologia social, conheço bem as ideias de Darcy, que via na educação uma ferramenta essencial para promover a união dos povos latino-americanos. Essa perspectiva está alinhada com outra figura fundamental na história do Memorial: André Franco Montoro. Enquanto concebia o Memorial, Montoro também desenvolvia, na USP, o PROLAN (Programa de Estudos Latino-Americanos), acreditando que o desenvolvimento da região dependia de uma integração mais sólida. Sem isso, Montoro temia que os países latino-americanos permanecessem vulneráveis ao subdesenvolvimento.
O Memorial da América Latina, hoje, está se reencontrando com esses objetivos maiores. Nosso propósito é devolver ao Brasil e à América Latina uma instituição plena, efetiva e integrada, que possa ser novamente um motor de diálogo, troca cultural e desenvolvimento regional. A integração econômica, política e cultural continua sendo um objetivo essencial, e o Memorial está preparado para contribuir com essa missão, reafirmando sua relevância como um símbolo e ferramenta de união latino-americana.
Este texto faz parte da edição física da revista Nossa América nº64
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