Ser latino no mundo: o segredo se desvenda
Filósofo colombiano cria instigante enciclopédia multimídia sobre os imaginários urbanos dos moradores de cidades latino-americanas
Por Armando Silva
Perguntei a várias audiências pelo mundo o que é ser latino e como o conjunto dos latino-americanos é reconhecido. Nas respostas, muita confusão e até erros magistrais: confundir um só país com o subcontinente todo, admitir ou excluir os latinos da cultura ocidental, presumir que não exista um conglomerado que seja nomeado os latinos.
Se você viaja por qualquer país europeu sabe que está na Europa e que aquele país é parte desse conjunto. Seus habitantes sabem que são europeus, estão inseridos no continente. Na Europa se falam línguas diferentes, mas uma não exclui a outra, pois os europeus partilham história, amigos e inimigos comuns e convivem num imaginário de totalidade e unidade geográfica. Há algo geográfico e cultural, algo subterrâneo que os enraíza e os identifica. E nós, latinos, será que nos vemos como parte de um todo? O que acontece conosco? Esse talvez seja o centro dos questionamentos sobre a América Latina, fator X da identidade coletiva – que ainda não se consolidou¹.

Falemos inicialmente da grande presença latina nos EUA. Projeta-se que, até 2060, 1 em cada 4 americanos será latino – 27% da população, de acordo com o National Census Bureau. Dá para imaginar o que significa para os latinos serem um quarto da população do país reconhecidamente mais poderoso do planeta? No entanto os latinos nos EUA são um lote amorfo, sem origem clara, porque os norte-americanos não têm instrumentos, educação ou referências para distinguir a proveniência desse aglomerado. Da parte dos latinos também se vê um aprisionamento em suas colônias: muitos nem se esforçam para aprender inglês. Cidades como Miami, chamada coloquial e orgulhosamente de “capital da América Latina”, decidiram ser forçosamente bilíngues com autonomia, isto é, a grande maioria dos habitantes ou fala inglês ou fala espanhol, não ambas as línguas.
Bogotá, segredo bem guardado
Em 2015, escrevi um artigo sobre identidades em Bogotá para a revista La vi des idées, do College de France, chamado L’aparition de Bogota: de la cité rêvée à la ville réelle (A aparição de Bogotá: da cidade sonhada à urbe real). No texto desenvolvi a tese de que minha cidade é “o segredo mais oculto da América Latina” – tese que hoje estendo ao subcontinente. O ensaio trata da representação social dos cidadãos latino-americanos sobre cidades do subcontinente, com informações colhidas em estudo realizado há 13 anos. Nesse artigo, expliquei sobre o uso de parte da metodologia de IU (Interface com o usuário) , buscando encontrar imagens e palavras que, na perspectiva dos participantes dos grupos da pesquisa, definissem cada uma das cidades. Imagens de várias localidades possibilitavam que os cidadãos as associassem às urbes – Cidade do México, Buenos Aires, Lima, La Paz, Quito, Santiago, Montevidéu ou São Paulo. Também selecionamos palavras e frases que melhor definiriam tais cidades, segundo os cidadãos. No caso de Bogotá, entretanto, não foi possível encontrar uma qualidade específica definidora da cidade: isso porque os adjetivos do campo semântico se circunscreviam aos que a mídia utiliza para a Colômbia como um todo, associados à violência.
Mesmo entre colombianos há diferenças na percepção sobre as cidades em que vivem. Por exemplo, em Barranquilla, no norte do país, os habitantes se identificam com o ritmo musical vallenato. No entanto, no distrito de Barrio Abajo, na mesma cidade, a maioria dos moradores (71% deles) se identifica com a salsa e a cumbia – embora no mapa das musicalidades latinas esses ritmos correspondam à costa pacífica de Cali, conhecida como a “capital mundial da salsa”.
Imaginários e urbanismo cidadão
Em um exercício de representação social semelhante feito com cidadãos de cidades europeias e norte-americanas, solicitamos que os participantes escolhessem frases para identificar a Colômbia; nas respostas prevaleceram dois sentidos ou eixos de percepção: o da violência e o do afeto. Nas respostas de cunho afetivo, a quase totalidade dos participantes associava Bogotá à literatura de García Márquez, ao Caribe (norte do país) ou à música litorânea, aos ritmos caribenhos cumbia e vallenato – justo o oposto da cidade fria e montanhosa, situada nos Andes(4).

As “lacunas de percepção” são parte central da metodologia que desenvolvi sobre imaginários urbanos. Nela, os mapas cedem aos esboços ou croquis: não estudamos as cidades tal como são fisicamente, mas as cidades imaginadas pelos moradores. É inerente à metodologia, portanto, comparar os esboços da “cidade imaginada” por seus cidadãos com os dados reais da cidade física; e o croqui resultante das percepções contra o mapa de dados reais. Daí surge uma aparição, o fantasma urbano, figura central e suporte da nossa análise dos imaginários. Essa metologia de análise se espraiou aos poucos, em diferentes projetos. A partir de 2021, quando o Instituto de Estudios en Comunicación y Cultura da Universidad Nacional de Colombia associou-se à Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO), foi criado o projeto Ciudades, Comunidades y Fronteras Latinas Imaginadas – CyCLI, em desenvolvimento. Hoje, há mais de cinquenta grupos de pesquisa internacionais usando a metodologia Imaginários urbanos.
A metodologia não aborda a cidade, mas sim seu urbanismo – não o dos arquitetos, mas o dos cidadãos em seu cotidiano; o que chamo de urbanismo cidadão. Quando alguém visita uma cidade, digamos fazendo turismo, não vai em busca da cidade física, mas daquela que tem em seu imaginário, a cidade imaginada. Num texto dedicado ao imaginário da capital argentina, mostro que os buenairenses identificam Buenos Aires principalmente com a noite, em face de todos os outros períodos das 24 horas do dia; daí surgem os ícones de identidade, como o tango e como Piazzola ou Gardel.
A partir dos esboços de percepção, que delineiam fantasmas no imaginário dos cidadãos sobre as cidades, podemos estabelecer paradigmas. Se nos perguntarmos sobre as noites latinas, por exemplo, podemos descobrir fraternidades insuspeitas – não geográficas, mas musicais e culturais. Ou seja, fantasmagorias urbanas, como se vê a seguir:

A diretora do Laboratório de Cultura e Território da Área de Comunicação e Cultura da FLACSO, Paula Mascías juntamente com Luis Alberto Quevedo entraram em contato comigo com a intenção de pesquisar latinidades a partir da metodologia dos imaginários urbanos – que consideravam instrumento valioso para captar o universo a desvendar. Depois, mais de 60 cidades responderam a uma chamada aberta para participar desse estudo (muitas delas estão em fase de conclusão de atividades). À frente de cada cidade, comunidade ou fronteira um coordenador das equipes garante rigoroso acompanhamento da metodologia.
Trabalho de tal magnitude, com tão elevado número de cidades, é absolutamente inédito. Em síntese, busca responder a uma única pergunta, altamente qualificada, de escopo desconhecido, embora até certo ponto óbvia: o que significa ser latino no mundo. Esse amplo e profundo estudo permite que, pela primeira vez em nosso subcontinente, se conheçam os esboços de percepção (imagens, sons e textos de análise) sobre cada uma das 27 comunidades que já encerraram as atividades, todos cruzados entre si como fator de identidade. Pesquisadores, estudantes e gestores urbanos de todo o mundo e o público em geral poderão saborear identidades continentais, seja coletivamente seja por comunidade nacional, regional ou territórios específicos. Seus três idiomas oficiais permanecerão livres para uso e acesso comum: espanhol, inglês e português.
A abordagem dos imaginários urbanos contempla três níveis de desenvolvimento: o numérico (as estatísticas cruzadas que originam os esboços ou curvas gráficas), a construção dos arquivos (de links visuais, sonoros e digitais) e a parte criativa, que acaba por se relacionar com a arte pública. Toda essa informação está armazenada e disponível em uma poderosa plataforma.
Iconologias latinas e emblemas do cidadão
Partimos da construção e isolamento dos esboços de percepção de cada cidade, comunidade ou fronteira por meio de rigoroso trabalho estatístico; depois de consolidá-los por cidade, comparamos e geramos fórmulas para identificar, tal qual uma impressão digital, como é a sua respectiva “cidade imaginada”, resultado da soma de seus croquis de percepção. Alguns exemplos permitem compreender melhor a abordagem: isola-se uma cor específica que represente a cidade, algumas ruas com cheiros agradáveis ou nauseabundos, algumas imagens do futuro ou um evento histórico dramático etc. A soma desses itens perceptivos corresponde à fórmula definidora da cidade, que a torna única: a marca de sua pegada no mundo.
Tomando por referência o universo da latinidade, apresentamos a seguir alguns desses achados em diferentes cidades, para defini-los de acordo com os demais de sua família semântica. Em cada cidade os esboços ou curvas identitárias mais poderosas são chamadas de emblemas e, portanto, a soma delas é a base para as iconologias urbanas da América Latina.
O gráfico-síntese a seguir apresenta a cor das capitais e metrópoles de países da América Latina de acordo com as percepções dos cidadãos no estudo realizado há 13 anos: o cinza predomina em 12 delas, o que perfaz mais da metade do universo e aparece como emblema dessas cidades imaginadas. O cinza predominante pode estar relacionado ao esboço climático (apresentado abaixo), no qual os cidadãos de 9 entre11 cidades percebem como “quente” ou “ameno” o clima de sua cidade. Em outras palavras, as cidades da Iberoamérica são quentes, mas cinzentas.
Gráfico 1: As cores das capitais e metrópoles latino-americanas

Parece ser significativo, entretanto, o lugar que os cidadãos escolheram para fazer suas escolhas. O gráfico 3 indica que 7 entre 12 dos cidadãos preferiram externar sua percepção em suas casas – diferentemente do que ocorreu quando estudamos as cidades espanholas, no estudo analógico há 13 anos, em que os participantes agendaram com os pesquisadores em bares.
Quanto aos “lugares da cidade com cheiro mais agradável”, o Gráfico 4 indica que correspondem a logradouros da natureza ou àqueles bairros ou ruas onde vivem pessoas ricas. Por outro lado, os “lugares com cheiro desagradável” (Gráfico 5) coincidem com locais apontados como perigosos (Gráfico 6): isso indica claramente a associação entre percepção de perigo e mau cheiro – e provavelmente a percepção da cor em escala de cinza.

O fato de bons aromas geralmente corresponderem a setores de maior capacidade econômica é significativo para se refletir sobre um novo urbanismo, construído a partir do imaginário dos cidadãos.

A iconografia dos dados de 13 anos atrás sobre o imaginário nas grandes urbes comparada aos obtidos hoje, no projeto digital, mostra muita cor nas cidades que não são capitais ou metrópoles: amarelo, verde e azul predominam no gráfico de percepções do projeto CyCLI (compare-se ao Gráfico 1, apresentado antes).

Cidade imaginada em imagens e sons
Os imaginários são feitos de desejos e subjetividades dos cidadãos, que resultam nas percepções da estética urbana. Os analistas reconhecem que o ser humano é responsável por seus desejos – o que equivale a compreender que o que ele imagina coletivamente o faz e o forma como personalidade grupal. Os desejos nos fazem e nos realizam como cidadãos: é o que assumimos no estudo dos imaginários urbanos. É necessário ler e examinar os desejos grupais como fontes e modos de resistência – ou “o que permite ao sujeito encobrir seus desejos”.

Amanhecer na cidade de Santa Rosa, La Pampa Argentina. Foto: Andrea D’Atri. Fonte: Arquivo CyCLI. Santa Rosa imaginada.
A percepção das pessoas sobre a cidade nunca é lógica, mas estética; portanto, nos dedicamos a compreender os diferentes sentidos e a história da beleza ou da feiura de acordo com os latino-americanos. Para isso, os arquivos visuais, sonoros e digitais são bastante eloquentes.
Primeiramente, observemos fotos estatisticamente relevantes apontadas pelos participantes do estudo. Santa Rosa, na Argentina, é uma cidade dos pampas, geograficamente aberta, com muita cor dominando sua representação. A foto escolhida por seus cidadãos como emblema da cidade reflete bem tais qualidades, com seu horizonte aberto (primeira foto) – o que a tornaria “da família” de Havana, Cuba, que é identificada pelo mar, pela praia e pela cor azul claro (segunda foto).

Vista geral de Havana, capital cubana, no nascer do sol. Foto: Ernesto Arturovich. Fonte: Arquivo CyCLI. Havana imaginada
Mas há ainda as fotos emblemáticas, capturadas apenas por referência estética, sem significância estatística: elas trazem revelações que correspondem ao segundo nível de desenvolvimento da nossa metodologia: os arquivos visuais.
Esta coleção espontânea de fotos revela uma paisagem de fantasmagorias latinas que nos aproximarão dos modos visuais e dos seres deste continente. É o caso dos autores da equipe da Cidade do México. Eles abrem o texto da Ciudad de México imaginada com duas frases que os identificam: “O passado está escrito na memória e o futuro e o presente no desejo” (Carlos Fuentes); e “México lindo y querido / Si muero lejos de ti / Que digan que estoy dormido /Y que me traigan aqui” (“México lindo e querido, se eu morrer longe de ti / Digam que estou dormindo / E me tragam para cá”, verso de uma ranchera de Jesús Ramírez Monge).

Procissão ribeirinha de devotos do Cristo Negro, o padroeiro da Igreja de São Romão. Campeche, Yucatán, México. Foto: Tulian Pérez Bocanegra. Fonte: Arquivo CyCLI. Campeche imaginada
A relação entre mitos e sonhos torna-se evidente. O psicanalista austríaco Otto Rank estava certo em seus julgamentos: não apenas o conteúdo, mas também a forma e as forças motoras desta matriz psíquica (como de outras) podem nos levar a assumir o mito como um sonho das comunidades.

Cenário habitual em várias das nossas cidades: a urbe formal dos arquitetos se defronta com a ocupação popular, informal, que habita colinas e morros de lima.
Foto: Juan Carlos Julcahuanca
Outro fator de identidade são sem dúvida os sons, que por sua vez afetarão a cor e a percepção geral. Não é possível reproduzir na revista os arquivos sonoros da pesquisa, mas um breve exemplo pode indicar como alimentam o imaginário: Cartagena das Índias é identificada por passos de cavalos, enquanto sua vizinha, Barranquilla, é identificada pela brisa do Rio Magdalena, que atravessa todo o país.

A imagem de um cavalo carregando café já identifica Manizales, na Colômbia, chamada de capital mundial do café. Foto: Paula Correa, 2022. Fonte: Arquivo CyCLI. Manizales imaginada
Os imaginários lançam uma tríade eficaz de matrizes à medida que nos aproximamos de suas interpretações: sonhos, mitos e imaginários. A ranchera mexicana, o tango argentino, o bolero cubano, o vallenato colombiano ou as baladas brasileiras são portadores de cenários de amor, frustrações e anseios de seus cidadãos. E viajam pelo continente com essas mensagens cativantes, que as pessoas repetem, ouvem e cantam em diferentes ocasiões. Mas ninguém cofundou uma ranchera e um tango e ninguém diria que a ranchera é um gênero argentino. É o que entendemos como matrizes de imaginários comunitários: elas podem nascer e se manter como mitos, mas em sua percepção são imaginários e, portanto, localizados. A música é, sem dúvida, um dos gêneros pelos quais os imaginários latinos mais viajam e a cumbia é o ritmo por excelência que reconhece o mundo latino como seu.

Arte pública e imaginários urbanos
Viajei por uma grande variedade de cidades com o arquiteto Hubert Klumpner, coordenador de uma equipe do projeto que visa desenvolver um aprendizado “de sul a norte”, na ETH Zurich (Instituto Federal de Tecnologia de Zurique). Vimos a cena a seguir, em Viena. Os mercados de migrantes sírios surgem em uma parte da cidade organizada, mas ao invés de condenar o caos, os habitantes percebem que se pode desfrutar dos novos cheiros, novas vozes, novas tintas daqueles que passaram a viver em Viena, mas não falam alemão. Outros pontos de vista urbanos se introduzem e enriquecem as já conhecidas tradições da cidade, o informal assumido como o novo, assimilado pela desordem com ordem, com seu impacto sensorial.
Em contraste, na mesma Viena e na mesma época, uma cidade desordenada em que algumas ruas planejadas se tornaram informais: é a partir disso que os moradores aprendem.

Perto da cidade argentina de La Paz, província de Entre Ríos, uma gaiola (barco a vapor movido por roda d’água) navega no delta do Rio Paraná. Foto Carmina López. Fonte: Arquivo CyCLI. La Paz, Entre Ríos imaginada
Nas reflexões conjuntas com Hubert, que é artista público além de arquiteto, pensamos sobre os critérios formal e informal usados para o espaço urbano. Em seu Cidade informal, Hubert defende que o informal traz consigo o inesperado e, portanto, responde melhor ao caos conjuntural. Há, portanto, fundamento para usar critérios informais adjacentes à arte contemporânea e pública em ações como a intervenção, as performances, as pegadas ou as rasuras presentes em diversas práticas artísticas . Um dos propósitos atuais do CyCLI é, precisamente, encontrar meios de projetar os estudos dos imaginários urbanos de modo que tenham efeito sobre a cidade real. Assim o planejamento urbano abordaria integradamente a arte pública e os imaginários urbanos .

Família de venezuelanos em El Paso, fronteira do México com os EUA. Cerca de 8 milhões de venezuelanos buscaram refúgio na última década, transformando a paisagem das cidades que os receberam. Foto: Luis Alfonso Herrera Robles. Fonte: Arquivo CyCLI. Fronteira México – EUA imaginada
Nos últimos anos o projeto IU tomou emprestadas algumas das estratégias da arte contemporânea para enriquecer nossas metodologias. Nós nos abrimos para explorar formas criativas, para que nós e nossas equipes não nos restringíssemos a ser apenas arquivistas de documentos. E assim fazemos, não para nos tornarmos artistas, mas para capturar dos imaginários sociais seus efeitos sobre o real. Os coordenadores de cada cidade não são convidados a se tornarem artistas, mas a registrar a terceira vertente do projeto criativamente, captar algum evento urbano, como atravessar uma rua, comer uma salsicha em uma barraca de rua ou passear em um parque ou caminhar pelos bairros de uma cidade.
Também nesses últimos anos passamos a explorar modos e conveniências entre a arte contemporânea e fotos de imaginários urbanos no CyCLI. Exemplo disso são as duas fotos que seguem. Uma, do paulistano Bruno Giovanneti, que cria um “novo grafite” a partir de um pré-existente. Ele parte de um grafite que já existia na cidade e captura essa imagem como documento, mas intervém com nova imagem e cria esse “novo grafite”, próximo da arte pública.

Mercado de imigrantes sírios enriquece as ruas da tradicional cidade de Viena. Foto: Hubert Klumpner, Viena, 2021. Fonte: Europa imaginada
O mesmo fez María Adelaida López em Bogotá: fotos de edifícios em construção na cidade, quando vistas de longe, se convertem em poços de petróleo, produzindo arte urbana – como foi registrado pela revista mexicana DeSignis.

Feira de imigrantes desorganiza as ruas planejadas da cidade de Viena. Foto: Michael Walczak, Viena, 2021. Fonte: Europa imaginada
A foto digital e outras tecnologias de imagem vêm em apoio à captura e recriação de imaginários urbanos. Nesta terceira década do milênio, a tecnologia, por um lado, e o informal, por outro, crescem e interagem. Quando perguntamos em nossos formulários qual é o objeto que a pessoa menos gostaria de perder na pandemia, a resposta foi unânime: o celular. O aparelho permitiu que os angustiados cidadãos trancados se comunicassem com o exterior e desta forma mostrassem o lado humano das tecnologias. Numa sociedade mediada como nunca antes, estar conectado se tornou indispensável. Perder o celular, portanto, significava não poder desfrutar da conectividade com os demais – e, em seguida, da presença dos outros, mesmo que apenas virtual.

Cena de rua na cidade de São Paulo: o grafite pré-existente e o morador de rua numa nova imagem-síntese. Foto: Bruno Giovanneti, 2015. Fonte: Arquivo Cidades imaginadas
Durante a pandemia vivemos um momento único na história: a cidade imaginada sobrepôs-se e dominou a real. É o que enfoco em meu livro intitulado Novela sin ficción: 471 días con el virus , um diário digital concebido como edição multimídia: antes mesmo da leitura, propicia aos leitores uma imersão que os integra às emoções e sensações dos cidadãos durante o período de tempo marcado pelo título. É possível ouvir as sirenes dos bombeiros, os grupos que, com cantos e instrumentos, incentivavam os vizinhos a não se deixarem derrotar, assim como apreciar as milhares de obras de arte caseiras, produzidas pelas famílias para sobreviverem durante o confinamento. A resistência cidadã de sobrevivência saiu da caixa, como mostram as duas fotos seguintes. A segunda é um registro do projeto CyCLI. Apesar de tudo, o grafite também sobreviveu.

Não há poços de petróleo no horizonte de Bogotá. Mas… na cidade imaginada poderia haver? Foto: María Adelaida López. Fonte: Arquivo Cidades imaginadas
O livro sobre vírus e suas vicissitudes serviu como modelo de edição para a enciclopédia das latinidades sobre as comunidades CyCLI. Essa enciclopédia será publicada em edição multimídia. Confinamento e pandemia pelo meio, o fato é que o projeto prosseguiu. Nada teria sido feito sem o trabalho das coordenadoras, dos coordenadores e das equipes operacionais de mais de 60 cidades – principalmente as 27 que chegaram à etapa final do estudo, buscando responder à pergunta: o que é ser latino? A essas equipes, nosso profundo apreço e gratidão. Esperamos que a futura enciclopédia represente um salto qualitativo – pela primeira vez, oferecer ao mundo um catálogo cruzado com conhecimentos, emoções, vozes, imagens, sons, gráficos e arquivos de algumas das culturas latinas. Tudo regado por muitos cantos de povos distantes uns dos outros, mas muito próximos, em suas línguas e amores ou medos que nos identificam como latino-americanos em comparação aos demais habitantes do planeta. Uma enciclopédia de livre acesso e com direitos comuns porque todos os participantes se esforçaram e anseiam por ela.

Obra da artista urbana Helga Stentzel, realizada durante a pandemia (2020). Fonte: Livro Novela sin ficción: 471 días con el virus, de Armando Silva
Sonhamos que a UNESCO e outras entidades mundiais que cuidam de culturas, regiões, nações e grupos étnicos nos recebam com entusiasmo e nos ajudem na difusão. Sonhamos que, a partir desta enciclopédia, o mundo descortinará povos e verdades que foram há séculos trancados e aprisionados em estereótipos empobrecedores. Estereótipos que, não duvidamos, causaram múltiplos danos e contribuíram para diminuir a autoestima coletiva por não nos adequarmos a outro grupo humano. Ao contrário, aspiramos a contribuir para que o orgulho dessas comunidades se eleve e se torne também orgulho de todo o planeta .

Pedestre caminha solitária durante a pandemia na frente de lettering. Sem a palavra inicial “NO’, o sentido do grafite dolorosamente se transforma. Foto: Madelaida López Restrepo, 2021. Fonte: Novela sin ficción: 471 días con el virus, livro de Armando Silva.
Este texto faz parte da edição física da revista Nossa América nº64. Baixe a edição completa.

