Centenário de Poty e as matrizes étnicas do povo
Maristela Debenest
“… E por isso, porque pertence a menos gente, / é mais livre e maior o rio da minha aldeia”
Assim escreveu Alberto Caieiro – digo, Fernando Pessoa – em O guardador de rebanhos. Assim viveu Poty, curitibano de nome indígena, filho de imigrantes italianos, que ganhou o mundo levando histórias sem nunca ter arrancado suas raízes.

Sempre comparei a composição gráfica dos painéis do Salão de Atos do Memorial da América Latina aos quadrinhos. Não exatamente aos gibis que li na infância, mas aos comics de composição não linear, com planos de distintas dimensões e perspectivas, que se tornaram febre quando o papel era o principal suporte das publicações. Essa comparação, aliás, me parece caber também para o Painel Tiradentes, de Portinari, exposto no mesmo ambiente quase religioso.
Esse foi um dos motivos de minha alegria com a oportunidade de escrever sobre os cem anos do nascimento de Poty. Outro motivo foi que, muitos anos atrás, ele ilustrou um almanaque que editei na finada Abril Educação, destinado a crianças em fase se alfabetização. Mas voltemos:
Poty foi gravador, desenhista, ilustrador, muralista e professor. Junto com Carybé, criou três dos seis gigantescos painéis do Salão. São obras monumentais, com 15 metros de altura por 4 de largura, construídas em 1988, em concreto aparente, e moldadas em baixo-relevo. Se não por tudo mais, essas obras já justificariam esta lembrança-homenagem.
Antes de escrever sobre o artista, li algumas publicações sobre seu trabalho – destaco especialmente duas delas, a tese de doutorado do arquiteto e pesquisador Marcelo Mendes Chaves[1], e o artigo de Luiz Prado, “Poty, o artista que fez a imagem conversar com o texto”[2], publicado pelo Jornal da USP.

Detalhe de painel sobre os povos originários. Criação: Poty Lazzarotto“Poty é Curitiba” ou é universal?
Napoleon Potyguara Lazzarotto, nome que recebeu dos pais, os imigrantes italianos Júlia e Isaac Lazzarotto, nasceu em Curitiba, Paraná, no mesmo dia do aniversário da cidade. No bairro do Capanema, foi piá (criança) e adolescente, na casa que ficava ao lado dos trilhos da ferrovia. Começou a desenhar muito cedo e suas criações ilustravam o teto do “Vagão do armistício”, pequeno restaurante montado no terreno da casa e frequentado por políticos e intelectuais. Fã de quadrinhos, aos 14 anos criou “Haroldo, o homem-relâmpago”, herói que protagonizou uma série publicada no jornal curitibano Diário da Tarde.
Tinha 18 anos quando se mudou para o Rio de Janeiro, ao ganhar uma bolsa de estudos para a Escola Nacional de Belas Artes. Quatro anos depois, como prêmio por vencer o Salão Nacional de Belas Artes, ganhou outra bolsa que o levou para a Europa. De volta, passou a morar no Rio, mudou-se depois para São Paulo (em 1950, quando fundou a Escola de Artes Plásticas), voltou ao Rio e, por fim, à sua cidade natal.
“Poty é Curitiba”[1], escreveu Jaime Lerner, um de seus admiradores mais influentes, ex-prefeito da capital paranaense. Pode até ser, por sua estreita ligação com a cidade, por onde se espalha grande parte de seus famosos murais (Praça 19 de Dezembro, Hospital das Clínicas, Centro Politécnico, Praça 29 de Março, fachadas do Teatro Guaíra e do Palácio Iguaçu). Numa de suas férias em Curitiba, conheceu Dalton Trevisan, editor da Joaquim, revista de curta existência (1946 a 1948) mas de grande prestígio, por publicar textos e ilustrações de autores consagrados.
Mas Poty foi mais que Curitiba. Profícuo lustrador de jornais, revistas, livros – como o singelo almanaque quer mencionei de passagem – ilustrou importantes obras literárias. Para elas produziu capas, contracapas, frontispícios e imagens internas. Para mais de 170 livros! Seu traço, sempre em diálogo com o texto, ilustrou obras de Guimarães Rosa, Machado de Assis, José de Alencar, Euclides da Cunha, Rachel de Queiroz, Antônio de Alcântara Machado, Jorge Amado e Dalton Trevisan. E junto com essas obras, rodou o Brasil. Fabricio Vaz Nunes, estudioso que publicou um livro sobre Poty[2], afirma que, ao estabelecer um diálogo com o texto da obra, a imagem gráfica ajudava o escritor a contar sua história. Leitor atento dos trabalhos que ilustrava, Poty criava um estilo adequado para cada autor e cada livro. Daí porque Antonio Houaiss escreveu em 1988, no livro Poty ilustrador, que “nunca a fusão verbo-ícone atinge tão intrínseca adequação”.
Em viagem à Floresta Amazônica em 1967-1968, a partir de registros de costumes indígenas do Alto Xingu, o artista elaborou 200 desenhos para o Caderno do Xingu, a pedido dos irmãos Villas Boas. E também produziu obras no exterior, como o mural da Casa do Brasil, em Paris (1960), e o painel do Hotel Atlantis, no Algarve, Portugal (1981).
[1] Carybé e Poty: análise sobre os painéis do salão de Atos Tiradentes do Memorial da América Latina, trabalho apresentado em 2017 ao Programa de Pós-graduação Interunidades em Integração da América Latina (Prolam/USP). Disponível em: https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/USP_aca2024ef0daa120a5633f546c9528f1.
[1] Resenha do livro Texto e imagem: a ilustração literária de Poty Lazzarotto, com depoimentos de seu autor, Fabricio Vaz Nunes. Disponível em: https://jornal.usp.br/cultura/poty-o-artista-que-fez-a-imagem-conversar-com-o-texto/.
[1] In Lerner, Jaime. Acupuntura urbana (2003).
[1] Texto e imagem: a ilustração literária de Poty Lazzarotto, de Fabrício Vaz Nunes, lançamento EDUSP, 2023.

Poty Lazzarotto homenageia os trabalhadores que editaram a América Latina
Painéis-murais monumentais
Costuma-se dizer que o Salão de Atos Tiradentes é o coração do Memorial, local dedicado a solenidades ligadas ao subcontinente latino-americano. Discordo. Para mim, o espaço é uma espécie de cérebro que condensa as concepções que nortearam a proposta cultural que deveria animar o grande complexo arquitetônico.
A arquitetura única desse Salão – uma enorme cúpula curva, com 30 metros de altura em seu ponto mais alto, apoiada em uma viga tensionada, sustentada por duas colunas bastante afastadas da construção – abriga as ideias-força que germinavam em Darcy Ribeiro naqueles anos, após muito tempo de exílio. Lá está uma das obras mais importantes de Candido Portinari, o Painel Tiradentes (1948), com seus 3 metros de altura por 18 de largura. E lá estão os seis “painéis heráldicos” a sintetizar quase cinco séculos de história latino-americana.
O arquiteto Marcelo Mendes Chaves ressalta, em tese de doutorado instigante, que a visão de Darcy Ribeiro constitui o cenário intelectual do trabalho de Poty e Carybé, artistas-autores. Os gigantescos tótens representam “as três matrizes étnicas da formação do Brasil”. São os painéis Povos indígenas (pré-colombianos), Povos afros e Povos iberos (conquistadores). Além disso, há os painéis que representam “três movimentos latino-americanos; as lutas de independência, as correntes migratórias após as independências e os ciclos econômicos a partir do processo de industrialização no continente”. São eles: Os libertadores, Os imigrantes e Os edificadores. O pesquisador aponta sua “pequena proximidade” aos países da América Latina, que atribuo tanto à dificuldade de sintetizar a diversificada história do subcontinente[1] quanto ao inescapável enraizamento brasileiro de todos os três mencionados – o rio de nossa aldeia (por nascimento ou escolha). O pesquisador sublinha que, “como agentes de construção da identidade nacional”, ambos produziram um grande acervo de arte pública em suas cidades-sede, Curitiba e Salvador.
Marcelo Chaves ressalta que Poty e Carybé desenharam trajetórias semelhantes, seja no aspecto plástico, seja na “extensa e significativa produção de ambos, cerca de cinco mil trabalhos cada um, entre desenhos, pinturas, gravuras, cerâmica, escultura, murais e painéis”. As semelhanças nas trajetórias e na linguagem de ambos, assim como as técnicas e material empregados na criação dos tótens-murais para o Memorial deu unidade plástica ao conjunto. Poty criou as obras dedicadas aos indígenas, aos imigrantes e aos trabalhadores (edificadores), enquanto Carybé produziu as relativas aos negros, aos conquistadores e aos libertadores.
Poty parte de seu contexto de vida no painel dedicado aos povos originários: os indígenas da região sul do hoje Brasil. Busca ampliar esse contexto para a América Latina, incluindo referências a outros povos originários, em contato com os europeus: violento quando se trata dos soldados conquistadores e seus cavalos, protetivo quando se trata dos religiosos de diferentes ordens – como frei Bartolomé de Las Casas, referido no mural. Sabemos como foram diversas as interações entre povos do Altiplano, dos Pampas e da Amazônia com espanhóis e portugueses na conquista – mas é ainda o “rio da aldeia” e o imaginário das reduções ou missões a prevalecer na obra.
O compromisso social do artista tanto com as populações minoritárias que migravam para a América como com os trabalhadores transparece nos dois outros murais do Salão de Atos. O livro Catálogo Memorial, editado em 1990, descreve o painel dedicado aos imigrantes como uma expressão das levas de “gentes […] dos quatro cantos do mundo” que contribuíram para construir a “aspirada” prática da liberdade, da “prosperidade co-participada”. De fato, primeiro “imigrantes” foram os conquistadores espanhóis e portugueses: os imigrantes-conquistadores; vieram depois, aos magotes, nos ciclos do ouro e dos diamantes: os imigrantes-aventureiros. Mas o mural se detém nas levas de imigração a partir da segunda metade o século XIX, especialmente dos que vieram para o Brasil após o final da escravidão e do tráfico negreiro clandestino, em movimentos incentivados pelos estados nacionais: “iberos, ítalos, germanos, francos, eslavos, nipônicos e de tantas outras etnias”, cita o Catálogo.
Já o painel que homenageia os edificadores dirige nosso olhar para diferentes símbolos do trabalho e das tecnologias que basearam o desenvolvimento econômico da região, especialmente o brasileiro: imagens de trabalhadores, agricultores, operários, pescadores e seus instrumentos de trabalho. Neste mural não há um plano dominante, ao contrário do que ocorre nos dois outros – um com o indígena com flauta no Quarup ao alto outro com o casal miscigenado na base. Neste tótem ao desenvolvimento, todos os elementos parecem combinar-se mais ou menos igualmente – embora o operário da forja capte com mais intensidade meu olhar. Talvez haja ali o ideário de um desenvolvimento equilibrado, que resulte na prosperidade co-participada mencionada no Catálogo.
Por fim volto a Marcelo Mendes Chaves, que salientou a proximidade afetiva e artística de Poty com Carybé durante muitos anos. Creio que isso, e o fato de terem vivido um período em que se valorizava o papel social das artes e da cultura, resultou na magnífica unidade do conjunto de painéis do Memorial. Trabalhos que portam l’esprit du temps. O espírito de seu tempo. Essa é marca de todos os artistas de destaque na história das artes. Como Poty.
Maristela Debenest
Redatora da Fundação Memorial da América Latina
[1] Exemplo claro está na matéria de Gabriel Rocha da Silva sobre o Caribe, neste número de Nossa América.

