Entre linhas e momentos, a trajetória do Memorial

Cartunistas latino-americanos homenageiam o Memorial da América Latina, que se firma como um polo fomentador do humor gráfico continental

Texto: José Alberto Lovetro (JAL)

Fotos: Luciana Morassi

 

A data entrou para a história do Memorial: era 29 de novembro de 2013, dia do meu aniversário, início da tarde. A notícia de que o Auditório Simón Bolívar estava queimando corria o mundo cultural feito rastilho de fogo. Logo o Memorial, instituição tão importante para os artistas da América Latina! E para mim. No ano anterior, como presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, eu havia sido convidado a homenagear Oscar Niemeyer, artista genial que aos quase 105 anos partira para outros sonhos neste universo infinito. Mesmo com pouco tempo, a ideia era fazer uma exposição com 105 desenhos, criados por igual número de cartunistas. Ela foi montada justamente no foyer espelhado do Auditório Simón Bolívar. O público gostou tanto que a mostra foi prorrogada e continuou no hall da biblioteca do Memorial por mais um tempo. Depois virou o lindo livro Oscar Niemeyer: 105 caricaturas, em homenagem ao arquiteto que inventou o Memorial.

Naquele dia, eu ainda não sabia que o Simón Bolívar seria recuperado em grande estilo e que sua reinauguração, quatro anos depois, em 15 de dezembro de 2017, seria a celebração do renascimento do grande polo de cultura latino-americana no país.

O que eu também não sabia é que seria convidado em 2024 para articular uma exposição de cartunistas latino-americanos que marcasse os 35 anos de existência do Memorial da América Latina, esse espaço multi-arte fundamental para os dias de hoje. Em plena era da Inteligência Artificial, em que o ser humano pode ser reduzido a programas vampiros de tudo o que já foi feito por artistas na história, dependemos justamente de espaços que valorizem a, digamos, Inteligência Emocional. E que outro centro cultural olha para todas as artes sem deixar de se voltar para a mais popular delas, aquela que tem o cartum, a ilustração, a caricatura, a charge e o quadrinhos como base?

 O desenho nasceu com os homens das cavernas e é até hoje a base de criação utilizando apenas papel e lápis, ou carvão e parede. Linguagem democrática que precisa ser preservada. Nós nos colocamos muito a reboque da tecnologia ao invés de utilizá-la a nosso favor. Inclusive se o computador, celular, ipad ou outro equipamento quebrarem é o conhecimento da base analógica que vai salvar a criação. Se todos fizerem contas só com a máquina de somar e ela quebrar, o que salva é saber a tabuada de cor. Certo? Ou seremos um zero à esquerda, literalmente.

O trabalho do cartunista é saborear um tema com alma de poeta do traço. É preciso dar chance a ele de se sentir em um ambiente de criação transcendental. Algo que faça os neurônios ficarem agitados com a carga de informação nova. O cartum tem um diálogo com quem o olha, o que faz com que se leve pra casa aquela experiência e se tenha vontade também de desenhar. Arte não é apenas olhar, observar algo, mas criar mais arte na cabeça das pessoas.

É mais ou menos o que senti ao visitar pela primeira vez o Memorial, esse lugar santificado pela arte. Logo abri a boca de espanto e prazer. Me vi penetrando em um território de descobertas emocionais. Tinha diante de mim esculturas, pinturas, fotografias, instalações e tudo o que o ser humano mais adora sonhar. Era preciso devolver algo.

Você pode imaginar o Niemeyer sentado, olhando um papel vazio em sua mesa, há mais de 35 anos, momentos antes de iniciar a criação do que seria o projeto Memorial da América Latina? Pois é, o Memorial começou exatamente assim, com um desenho rabiscado em linhas simples sobre o papel. Darcy Ribeiro, idealizador do conceito do Memorial e do seu projeto cultural, deve ter pirado ao sentir o que estava para acontecer. Niemeyer criou um espaço que passou para a história da cultura latino-americana!

E agora eu é que precisava fazer a curadoria e desenhar para a exposição “Entre linhas e momentos – 35 anos do Memorial”. A primeira coisa que me ocorreu foi representar ao meu estilo aqueles dois momentos que tanto me marcaram – o incêndio e a reinauguração do Auditório Simón Bolívar. Depois era preciso selecionar 50 cartunistas latino-americanos que percebessem que o Memorial estava abrindo um espaço privilegiado para valorizar o humor gráfico. Primeiro busquei garantir a representatividade nacional com cartunistas de várias regiões do Brasil. Alguns da Geração Pasquim, que inspiraram muitos outros artistas da nova geração. E mulheres cartunistas, que não são muitas, mas que estão entrando na mídia aos poucos, com maior intensidade nos últimos cinco anos. Temos obras da Argentina, Colômbia e Chile. Imagino que esta exposição possa ser remontada nos 40, 45, 50 anos do Memorial com novos desenhistas de outros países latino-americanos.

Procurei passar para cada um dos desenhistas uma ideia diferente baseada na história do Memorial, nas obras que ali estão espalhadas e na funcionalidade e representatividade no continente. A maioria dos cartunistas sempre busca retratar o Memorial a partir da Mão com o mapa da América Latina em sangue escorrido. Niemeyer a concebeu para que o local tivesse uma espécie de logotipo do sentimento latino. É tão forte que os desenhistas se apoiam nesta imagem para sua criação, mas a exposição não poderia ter só um tema. Foi preciso uma conversa com cada um dos participantes para diversificar o conteúdo, sempre trabalhando as potencialidades de cada um. Uns são mais caricaturistas e outros mais ilustradores. Quem olha os trabalhos sente essa representatividade e diferença de estilos harmoniosa. Alguns são de traços de linha clara e outros de detalhamentos gráficos, mas todos são autoexplicativos.

A exposição “Entre linhas e momentos – 35 anos do Memorial”, cujos cartuns podem ser conferidos no site da instituição, agora faz parte do imaginário da cidade de São Paulo. Virou uma realidade em nossos corações e mentes. Para mim, participar dessa história é soltar aquela lágrima de amor que escorre pelo rosto como uma criança corre pelo campo aberto.

Uma linguagem democrática que precisa ser preservada

Depois daquela primeira exposição sobre Oscar Niemeyer, em 2012, o Memorial da América Latina voltou a convidar a Associação dos Cartunistas do Brasil para organizar mostras e homenagens. Algumas delas foram editadas pelo Memorial e viveram alentados livros de ilustrações:

Em 2013, inventamos versões divertidas para o coelho Sansão, companheiro da personagem Mônica, que comemorava 50 anos de sua criação por Maurício de Sousa. Em 2014, homenageamos Gabriel García Márquez, que havia morrido naquele ano (virou o livro Borbo letras). E em 2015, celebramos os 50 anos da TV Globo com cartuns e caricaturas de personagens das novelas.

O ano de 2016 foi especialmente profícuo para os cartunistas no Memorial. Logo em fevereiro participamos da Vila do Chaves, exposta no Memorial e no próprio México com apoio da Florinda Meza, viúva do Roberto Gomez Bolaños. Em abril inauguramos o 1º Salão Latino-Americano de Humor, com a participação de desenhistas de 47 países. O tema foi a música latino-americana e com isso esses cartunistas se voltaram para a nossa cultura[1]. A repercussão internacional chegou a países que não conheciam o Memorial. A exposição foi montada no Salão de Atos Tiradentes, que se tornou um dos mais lindos salões de humor do mundo. Ali inovamos ao expor fisicamente os cartunistas selecionados e virtualmente todos os outros, cerca de 600, em uma montagem em looping exibida num grande monitor. Em setembro do mesmo ano, homenageamos os 100 anos de Ulisses Guimarães com caricaturas feitas por desenhistas de todo o país e cartuns históricos da época em que ele viveu e foi presidente da Assembleia Nacional Constituinte (1997-1998). Por fim, em dezembro, montamos “Mulheres poderosas”, no saguão da Biblioteca Latino-Americana.

Em 2020 montamos a exposição “Inezita minha viola” em reverência à grande cantora, apresentadora e pesquisadora do folclore brasileiro Inezita Barroso (1915-2015), que completaria 95 anos. O anúncio da exposição foi feito no programa Altas Horas, de Serginho Groisman, na TV Globo, onde levamos a única filha da Inezita, Marta Barroso, a cantora Bruna Viola e Chitãozinho e Xororó. A mostra de caricaturas foi montada justamente no início da pandemia do Covid 19 e com os problemas do isolamento ficou aberta apenas uma semana para visitas. Estava programado o 1º Salão de Humor Sertanejo do país para o mês de abril, mas por essa mesma razão foi montado apenas virtualmente no portal www.festanejo.com.br.

Em 2022 o Memorial me convidou para montar uma exposição nas pilastras do Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro. O tempo era curto e a verba também, mas quando surge um desafio para os cartunistas temos que topar só pra mostrar a versatilidade do humor gráfico. Convidamos Fernandes, grande chargista e cartunista premiado no Brasil e no mundo, para realizar as 16 caricaturas de personalidades da Semana de 22. Acabou sendo o evento de maior repercussão sobre a data na mídia, por sua originalidade e grandiosidade, com caricaturas de mais de quatro metros cada – e ficaram expostas por todo o ano de 2022. No mesmo ano, criamos uma exposição em homenagem ao Angeli, que acabava de anunciar sua aposentadoria para cuidar da saúde. Mais um sucesso, o que demonstra como esse profissional inspira centenas de novos desenhistas.

Aquele primeiro ano pós pandemia foi encerrado com a edição pelo Memorial do livro Dar de si Ribeiro – Darcy 100 anos, com cem caricaturas de desenhistas de todo o Brasil no centenário de nascimento do antropólogo. Por conceber o projeto cultural, Darcy Ribeiro (1922-1997) foi fundamental para que o Memorial tivesse uma programação à altura de sua importância. O que, evidentemente, inclui o desenho, linguagem democrática que tem como base o papel e o lápis.

José Alberto Lovetro, o JAL, é cartunista e jornalista. Preside a Associação dos Cartunistas do Brasil.

[1] Mais informações no link https://salaolatinoamericanodehumor.com/.

 

 

Conheça os artistas que participam da homenagem ao Memorial

Quem visitou “Entre linhas e momentos – 35 anos do Memorial” (16 de outubro a 31 de janeiro de 2025) recebeu um conjunto de cartões com o desenho de cada um dos cartunistas que participaram da exposição. São eles: Amorim, Baptistão, Bira Dantas, Brum, Camilo Riani, Cárcamo, Carvall, Chico Riani, Claudio Teixeira, Custódio, Eder Santos, Edgar Vasques, Edra, Eduardo Grosso, Elena Ospina, Erasmo Spadotto, Érico San Juan, Fausto Bergocce, Fausto Longo, Fernandes, Franco de Rosa, Fred, Gilmar, Gilmar Fraga, Hippertt, j.Bosco, JAL, Jô Oliveira, Jorge Inácio, Jota A, Júnior Lopes, Liliana Ostrovsky, Lorena Kaz, Manga, Miguel Paiva, Mônica Fuchshuber, Natália Forcat, Nei Lima, Orlando, Paffaro, Santiago, Sergio Más, Seri, Silvano Mello, Stella Peralta, Synnove, Hilkner, Toni D’Agostinho, Ulisses e Will.

 

Este texto faz parte da edição física da revista Nossa América nº64

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