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Disputa e dispersão: duas forças que atravessam o Caribe

A história, a resistência e a memória dos povos das Antilhas propõem um “pensamento arquipélago” para o mundo

Texto Gabriel Rocha da Silva  –  Ilustrações Giselle Ottöboni

Édouard Glissand e o pensamento arquipélago: o filósofo da Martinica queria crioulizar o mundo

 

“Passe suas férias em praias paradisíacas por um precinho que cabe no bolso”, diz um típico folheto de agência de viagem contemporânea, emoldurado por altos coqueiros fincados na areia branca. No fundo, o incomparável degradê de tons do mar do Caribe, do azul turquesa ao verde esmeralda. Aqui e ali, ilhas de tamanhos variados. Claro, nenhuma palavra sobre os furacões que assolam a região de quando em quando. E isso é assim há muito tempo.

Segundo dados do Ministério do Turismo da República Dominicana de 2023, mais de 7 milhões de pessoas desembarcaram no país pelos aeroportos, enquanto mais de 1 milhão chegaram nos cruzeiros. Ou seja, mais de 8 milhões de pessoas tiveram contato de alguma forma com a cultura caribenha no ano passado. No entanto, mesmo o Caribe procurado por todo o mundo, a região é uma completa estranha para os latino-americanos. Pouco se sabe da sua histórica social, política e intelectual. Deixar ser tocado pelo Caribe, conhecer as fissuras de uma região que muito tem a dizer para nós, do continente, pode não ser uma tarefa das mais fáceis, mas talvez vale aqui o exemplo de um intelectual caribenho, José Martí, e entender que as dores do Caribe também fazem parte da “Nuestra América”.

O poeta Aimé Césaire defendeu as raízes africanas e o conceito de negritude: volta espiritual, cultural e simbólica à África

Tranquilidade” foi a palavra que o capataz La Barre usou no século XVIII para definir as terras francesas, na parte oeste da ilha caribenha Hispaniola, em carta escrita para sua esposa na França. “Não há inquietação entre nossos negros… Eles nem sequer concebem algo assim. São muito tranquilos e obedientes. Uma revolta entre eles é impossível”, escreveu o capataz francês, conforme contado por um célebre intelectual haitiano, Michel Roplh Trouillot, no livro Silenciando o passado, de 1995.

 

La Barre não desconfiava que meses depois, em 1791, os primeiros escravizados se rebelariam contra sua condição de vida, o que desaguaria doze anos depois na vitória militar definitiva de Jean Jacques Dessalines sobre as tropas enviadas por Napoleão. O processo político revolucionário haitiano abalou o sistema colonial, apoiado no escravismo, de norte a sul das Américas. Dizem que os senhores de escravos tremiam em Salvador, na Bahia, por exemplo.

Na verdade, o Haiti nunca foi um mar de tranquilidade. No período escravocrata, os processos de resistência eram simultâneos ao novo modo de habitar a ilha, do envenenamento de colonos à marronage (fuga e criação de comunidades livres, fenômeno semelhante aos quilombos brasileiros), da revolta de François Mackandal (escravizado africano, executado em 1758) ao movimento independentista liderado por Toussaint Louverture.

A violência da escravidão caribenha incluía processos de desterritorialização. Ao serem levados aos tumbeiros navegantes, os negros deixavam para trás vínculos familiares e sua relação com a terra natal. Ao desembarcarem numa ilha do Caribe, eram impedidos de se fixar no solo, qualquer que fosse, e diretamente enviados ao empreendimento colonial do açúcar. Outra desterritorialização passa pela condição de não serem mais donos do seu próprio corpo, já que até o útero das mulheres negras estava vinculado à estrutura escravagista.

Ainda assim, os pretos forjaram a sua própria forma de habitar a colônia, seja na produção dos roçados, seja nos ritos do vodu e demais manifestações culturais. Essas, para além da paisagem monocromática da plantation, levavam em consideração a relação com os elementos da natureza que estava sendo destruída à medida que a colonização avançava. Assim era o cenário que servia de antessala à Revolução concluída em 1804 por negros escravizados, liderados em um primeiro momento por Loverture e posteriormente por Dessalines, Alexandre Pétion e Henri Cristophe. Após a independência da França, o Haiti sofre as duras penas de uma indenização milionária pedida por Paris, o que dificulta o desenvolvimento do país, condição que se arrasta pelo século XIX e, por uma série de razões internas e externas, até hoje.

A história complexa do Haiti é um bom exemplo das contradições do Caribe, marcada pelo colonialismo europeu, primeiramente, e depois

Frantz Fanon: pan-africanista, anti-colonial e revolucionário

pelo imperialismo estadunidense. Por isso, termos como disputa e dispersão são úteis para pensar as Antilhas. Disputa por ser uma região em que, diferentemente do continente, no qual Espanha e Portugal foram hegemônicos, a presença espanhola conviveu com Inglaterra, França e Holanda, potências marítimas que rivalizavam pelo controle da região, mas que concordavam em um aspecto: a escravidão.

Posteriormente, a partir de meados do século 19, o Caribe fica suscetível às vicissitudes políticas dos Estados Unidos, a potência emergente. Porto Rico, por exemplo, após quatro séculos de controle espanhol, é jogado para debaixo do guarda-chuva estadunidense, em 1898. Quatro anos depois, por meio da famigerada Emenda Platt, os EUA se dão o direito de exercer controle sobre a política e a economia de Cuba. A potência da América do Norte igualmente intervém militarmente na República Dominicana, em 1965, para impedir que o escritor progressista Juan Bosch voltasse ao poder, assim como ajuda o candidato pró Washington, Edward Seaga, a se alçar ao poder na Jamaica, em 1980. Essas são apenas algumas das intervenções norte-americanas nos principais países do Caribe, mas há várias outras em ilhas menores, sem contar o braço longo ianque na América Central e nos demais países da América Latina, incluindo o México.

Vale chamar atenção para o outro padrão que se repete na região, a dispersão. Por mais contraditório que seja, a unidade caribenha pode ser encontrada na sua dispersão. Dispersão nos modos com que os colonizadores dominaram os primeiros habitantes do arquipélago, os indígenas Taino, muitas vezes expulsando-os de suas ilhas ou territórios. “Dispersão” nas formas com que os negros de diversas culturas e regiões da África foram trazidos e foram espalhados pelas ilhas. E, mais contemporaneamente, dispersão nas formas de migração caribenha, seja de haitianos para a República Dominicana ou de porto-riquenhos, cubanos e jamaicanos para os Estados Unidos.

A dispersão é uma chave para compreender a vida e o pensamento de alguns intelectuais caribenhos, como Frantz Fanon (1925 – 1961), martinicano que na França reflete sobre a condição de sua negritude para depois atuar ao lado dos argelinos na luta pela independência do país; Walter Rodney(1942-1980), natural da Guiana inglesa, que depois de estudar em Londres vai para a Jamaica até ser declarado persona non grata no país, em 1968, e se transferir para a Tanzânia, onde se torna um eminente panafricanista. Outro marcado pela dispersão é Stokely Carmichael (1941 – 1998), nascido em Trinidad e Tobago. Em 1966, em um discurso nos EUA, apela ao Black Power (Poder Negro). Essa expressão então “viraliza” e se consagra na luta dos Panteras Negras norte-americanos, grupo que Carmichael apoiará ativamente. Para encerrar essa pequena lista, Maryse Condé (1934), falecida neste ano, natural de Guadalupe (colônia francesa no Caribe), escreve romances históricos sobre culturas africanas, por meio dos quais aborda temas raciais e de gênero.

Maryse Condé, de Guadalupe, escrevia romances ambientados na África

A disputa e a dispersão, causadas pela fratura colonial e imperialista, aparecem nas lutas sociais dos países caribenhos, evidentemente. Isso fica patenteno processo político de alguns países das ilhas e arquipélagos no pós Segunda Guerra Mundial, como a insurreição nacionalista de Porto Rico, em 1956; a Revolução Cubana, vitoriosa em 1959; as movimentações populares em favor de um regime democrático na República Dominicana nos anos 1960, após 30 anos de ditadura de Rafael Trujillo; as greves gerais em Curaçao, em 1969…

O Black Power será reivindicado pela juventude preta urbana do Caribe. Em Granada, por exemplo, a década de 1970 vai chacoalhar os rumos da política local. Após manifestações negras, o governo de Eric Gairy enfrenta greves. Da efervescência política surge o Movimento New Jewel (New Joint Endeavor for Welfare, Education, and Liberation; em português, Novo esforço conjunto para o bem-estar, educação e libertação), que toma o poder e indica Maurice Bishop, um homem negro que vem do movimento Black Power, para liderar o país em 1979. Já no comando, Maurice Bishop promove mudanças, como a nacionalização do setor de eletricidade. Em 1983, uma facção do Movimento Jewel tenta aprofundar a revolução, lidera uma rebelião e fuzila Bishop. Em 25 de outubro do mesmo ano, Ronald Reagan se aproveita da crise e manda os mariners invadirem o pequeno país. Era o fim da primavera granadina.

O Black Power também foi importante na Jamaica. Em Kingston, na primeira metade do século 20, o panafricanismo de Marcus Garvey (1887-1940) fortaleceu o compromisso da diáspora dos povos negros com o continente africano ao afirmar uma identidade africana anticolonial. Ele foi apelidado de “Moisés Negro” por convocar os afrodescendentes do mundo para retornar à África. Após a morte de Garvey, a movimentação negra na Jamaica ganha requintes mitológicos e religiosos. O rastafarianismo mantém o compromisso com a África, mais especificamente com a Etiópia de Ras Tafari Makonnen (Ras= título de nobreza. Tafari Makonnen= o Imperador da Etiópia, também conhecido como Haile Selassie). O movimento pregava a supressão absoluta da supremacia branca no país e o fim da exploração e degradação do povo negro. Expressão cultural desse movimento e período é o reggae, como atestam as letras críticas de Peter Tosh e Jimmy Cliff.

José Martí, escritor e político cubano que pegou em armas contra a potência colonizadora: as dores do Caribe também fazem parte de Nuestra América


Marcus Garvey, o Moisés Negro: da Jamaica defendia a identidade africana anticolonial e convocava os afrodescendentes a voltar à África

Para rematar este resumidíssimo recorrido pela história social e intelectual do Caribe sob a égide da disputa e da dispersão, preciso recorrer ao pensamento do escritor martinicano Édouard Glissant (1928 – 2011). Ele que se sentou no banco escolar ao lado de Frantz Fanon para assistir às aulas do mestre Aimé Césaire, de quem foi discípulo no início da sua trajetória, mas rompeu posteriormente com a ideia de negritude como volta para a mãe África. Glissant desenvolveu os conceitos de antilhanidade e crioulização, em que valoriza a cultura misturada do Caribe e lança uma filosofia para o mundo. O “pensamento arquipélago” de Glissant propõe que todos estejam em interação com todos, o que ele chama de “poéticas da relação” porque, como ele dizia, “eu posso me transformar ao me relacionar com o outro, sem com isso perder ou diminuir minha identidade”[1]. Todos aqui significa todos mesmo, pois “nossa utopia é uma busca por interconexão e totalidade, mas de forma que não deixemos de fora nenhum componente do mundo quando pensamos ‘mundo’. Assim, no mundo de hoje, a utopia nunca está completa. É aquilo que falta”[2]. Essa é, talvez, a principal lição que se extrai da experiência caribenha.

 

Gabriel Rocha da Silva Jornalista nascido e criado no extremo-leste de São Paulo, é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina, da Universidade de São Paulo (Prolam/USP)

[1] GLISSANT, Édouard, OBRIST, Hans Ulrich. Conversas do arquipélago. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2023, p 49

[2] Idem, p 45

 

Este texto faz parte da revista física Nossa América nº64
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