COLUNA

Por Pedro Machado Mastrobuono
Presidente da Fundação Memorial da América Latina
Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro
A universidade que Darcy acenou
Às vezes uma ideia atravessa a vida de uma pessoa como um vento antigo, desses que sopram antes mesmo de sabermos de onde vêm. A minha memória de Darcy Ribeiro tem essa natureza. Não começou nos livros ou na universidade. Começou quando eu ainda era menino, em Lima, num tempo em que o exílio não se chamava teoria, mas casa temporária. Darcy chegava pela porta da nossa sala carregando um rumor de Brasil, e ao mesmo tempo uma espécie de alegria teimosa. Ele falava do país como quem fala de alguém que se ama apesar de todas as dores, e aquilo ficou gravado em mim antes mesmo de eu poder compreender o sentido exato das palavras.
Mais tarde, quando a vida me levou ao estudo da Antropologia Social, encontrei nos textos aquilo que, na infância, eu tinha percebido apenas como vibração humana. Em A Universidade Necessária, Darcy escrevia que a universidade latino-americana precisava ser reinventada para que “não fosse simples aparelho de reprodução de desigualdades”, mas instrumento capaz de “promover o avanço social, científico e cultural de povos historicamente negados”. Ler isso, anos depois daquele convívio, era como reencontrar um fio antigo. Um lembrete de que algumas ideias esperam o tempo certo para florescer.
Hoje, ao caminhar pelo Memorial da América Latina, sinto que esses fios se entrelaçam novamente. Não como destino, mas como responsabilidade. O Memorial, criado por ele, carrega nas suas linhas arquitetônicas e no seu propósito simbólico uma espécie de convocação. É um espaço que respira a utopia latino-americana. Um território aberto onde culturas, línguas, sabores, ritmos e memórias se encontram como se estivessem retomando uma conversa interrompida. Foi aqui, mais do que em qualquer outro lugar, que compreendi a força da frase de Darcy quando dizia que o mundo precisava conhecer “o povo que estamos criando”, essa síntese viva de mestiçagens que a América Latina engendrou.
Escrevi há pouco tempo que Darcy sempre foi um farol, sobretudo em um país dividido. Um farol não ilumina apenas o oceano; ilumina também aqueles que se sentem perdidos. Ele nos ensinou que a divisão brasileira não é irreversível quando enfrentada pela educação, pela cultura e pela criação compartilhada de futuro. E talvez seja por isso que a ideia de erguer aqui uma faculdade, que no tempo devido se tornará universidade, não tenha nascido de um plano administrativo, mas de um impulso de coerência histórica. Se Darcy fundou a UnB com o sonho de fazer dela um laboratório intelectual do Brasil que viria, por que não permitir que o Memorial se torne hoje extensão desse gesto, atualizado ao século XXI?
Recordo que em A Universidade Necessária ele insistia que a universidade latino-americana deveria ser, antes de tudo, fiel ao seu povo. “Uma universidade necessária é aquela que se compromete com a realidade que a cerca, que não se contenta em contemplar o país, mas busca transformá-lo.” Essa é talvez a linha que mais me acompanha, porque contém uma verdade simples: a educação não é um monumento, é um movimento.
E é nesse movimento que o meu texto sobre o farol de Darcy encontra agora sua continuação natural. O Memorial pode ser mais do que um espaço de memória. Ele pode transformar-se em um lugar onde a América Latina se reconhece como projeto comum. Onde povos indígenas, afrodescendentes, migrantes, periferias urbanas e todas as vozes que compõem nossa paisagem humana possam ser estudadas, ouvidas, protegidas e celebradas. Onde o patrimônio se torne presença viva. Onde a cultura seja tratada como questão de Estado. Onde a educação assuma o papel civilizatório que Darcy nunca abandonou.
Não escrevo isso por vaidade ou pretensão. Escrevo porque sinto, com muita clareza, o peso de uma tarefa que a vida me colocou nas mãos. É como se aquele menino em Lima tivesse recebido, sem perceber, uma pequena centelha de um projeto maior do que ele. E agora, tantos anos depois, cabe ao homem que esse menino se tornou fazer com que essa centelha encontre forma, corpo e continuidade.
Se a universidade necessária de Darcy era uma semente plantada num país que ainda buscava compreender a si mesmo, a Faculdade Memorial pode ser um de seus frutos tardios, amadurecidos pela história. Nasce com a vocação de unir memória, cultura, pesquisa, artes, direitos humanos, patrimônio imaterial e pensamento crítico. Nasce com a firmeza de quem sabe que a América Latina não é um acidente geográfico, mas uma promessa civilizatória. Nasce com a humildade de quem entende que cada gesto nesta direção é parte de um legado coletivo, nunca individual.
Talvez seja assim que o farol continue aceso: não como homenagem, mas como continuidade. Não como estátua, mas como travessia. E que essa travessia seja ampla, generosa, aberta, capaz de formar pessoas que olhem para o nosso continente não como terra arrasada, mas como campo fértil de possibilidades. Que esta nova instituição, ao nascer, se lembre da advertência de Darcy de que “o Brasil tem urgência de si mesmo”. E que responda a essa urgência com coragem, com ciência, com sensibilidade e com a beleza das múltiplas vozes que sempre nos constituíram.
Se isso acontecer, então talvez eu possa dizer, em silêncio, que honrei a responsabilidade que me coube. Não como herdeiro, mas como alguém que teve a graça de estar próximo de um grande sonhador e que agora faz o possível para que seus sonhos permaneçam vivos.
E é precisamente por essa razão que hoje anuncio, com serenidade e com sentido de dever histórico, que o Memorial da América Latina avança a passos largos para transformar este território simbólico em uma Faculdade Memorial, que no tempo certo se tornará universidade. A Cátedra UNESCO que aqui reside, as bolsas de pesquisa já ativas, os programas de formação e a vitalidade cultural que atravessa este espaço constituem o alicerce dessa construção. Darcy escreveu em A Universidade Necessária que “toda universidade que se realiza como projeto de libertação torna-se fator decisivo de desenvolvimento humano e social”. É com esse espírito que o Memorial assume a tarefa de formar pessoas capazes de pensar e transformar a América Latina. Que esta faculdade nasça para cumprir o que Darcy imaginou: ser instrumento de emancipação, de inclusão, de criação coletiva de futuro. Que ela se erga, enfim, como resposta concreta a esse chamado que permanece vivo há décadas.

