COLUNA
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Por Pedro Machado Mastrobuono

Presidente da Fundação Memorial da América Latina

Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro

pedro.mastrobuono@memorial.org.br

O ano em que a utopia levantou da cadeira

Quando a Casa Darcy Ribeiro e a Fundação Oscar Niemeyer se reencontram com o Memorial da América Latina, somam-se a uma travessia já iniciada: a criação da Faculdade Memorial, a acolhida de povos latino-americanos, a chegada de novos acadêmicos do continente e o abraço de peito aberto ao legado que Darcy nos deixou

Entrar no dia 2 de janeiro de 2026 é caminhar por uma zona fronteiriça na qual o passado ainda respira e o futuro já pede passagem. Não se trata apenas de um gesto simbólico, mas de um deslocamento real, quase antropológico, em que o país se observa, reconhece suas fraturas, reavalia suas esperanças e tenta reencontrar seu eixo. O Brasil chega a este novo ano carregando as marcas de uma sociedade que continua debatendo sua própria alma, os limites de sua convivência, a força e a fragilidade de sua democracia. Ainda assim, chega também com a capacidade extraordinária de, mesmo ferido, continuar sonhando. É nesse gesto persistente, quase teimoso, que se esconde a possibilidade de uma travessia.


Ao longo de 2025, o Memorial da América Latina viveu um processo de maturação silenciosa, porém profunda. Foi um ano em que a instituição se reencontrou com suas origens e, ao mesmo tempo, voltou a se comprometer com um destino que sempre lhe foi maior do que a própria materialidade de seus espaços. Afinal, como lembrava Darcy Ribeiro, nenhuma obra verdadeiramente pública nasce para celebrar o passado, mas para convocar o futuro. Quando Darcy dizia que “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”, ele nos obrigava a um deslocamento ético e intelectual: compreender que a transformação não virá por inércia, mas por decisão. Decisão de sermos mais ambiciosos, mais responsáveis, mais atentos e mais exigentes conosco mesmos. É nessa chave que o Memorial começa este novo ano: decidido a fazer mais e decidido a fazê-lo com sentido histórico.

Esse amadurecimento institucional não nasceu de um único ato, mas de uma sequência de gestos de hospitalidade e coragem. Foi o Memorial que abriu suas portas para acolher a Casa da Venezuela em um momento de extrema vulnerabilidade, permitindo que famílias inteiras encontrassem ali um espaço de cuidado e, por vezes, quase um consulado informal. Foi o Memorial que voltou a receber acadêmicos de diversos países latino-americanos, professores, pesquisadores e escritores que hoje integram rodas de pensamento, seminários e programas permanentes. Foi o Memorial que se transformou em refúgio intelectual do PROLAM da USP, com livres-docentes, pós-doutores e estudiosos de várias nacionalidades circulando diariamente em seus corredores. Cada uma dessas etapas reafirmou aquilo que Darcy e Niemeyer intuíram desde o início: o Memorial só cumpre seu papel quando se torna casa, quando se torna ponto de encontro, quando se torna a mesa grande da identidade latino-americana, onde nenhum país olha apenas para si.

A aproximação orgânica com a Casa Darcy Ribeiro e com a Fundação Oscar Niemeyer devolve ao Memorial uma espécie de completude institucional, como se o pensador e o arquiteto que sonharam esta obra voltassem a colocar as mãos na argamassa. Não se trata de mera parceria formal, mas de uma recomposição simbólica. Darcy e Niemeyer foram, cada um à sua maneira, criadores de mundos. Um escrevia o país pela lógica da educação, da história e da antropologia. O outro desenhava os contornos da convivência, do encontro e da liberdade por meio da forma, da luz e do espaço. Ao somar esses dois pilares, o Memorial reencontra sua alma. Ganha de volta a coerência que estava dispersa pelas urgências do tempo e reencontra também a coragem de se recolocar como um projeto continental.

Essa rearticulação se soma às iniciativas que, ao longo de 2025, abriram alas para a criação da Faculdade Memorial, um empreendimento que não nasce da vaidade institucional, mas da consciência de que o Brasil precisa reinventar seus espaços de formação. Darcy insistia que a universidade necessária não é aquela que replica modelos importados, mas a que se compromete com a realidade concreta do país. Ele dizia que “a tarefa da educação é produzir brasileiros”, expressão que, lida com atenção antropológica, revela uma inquietação profunda: que tipo de sujeito queremos formar, que tipo de sociedade esperamos consolidar e que tipo de futuro estamos dispostos a admitir como possível.

Uma faculdade memorial não pode ser apenas um campus, uma certificação ou um programa de aulas. Ela precisa ser um organismo vivo, capaz de articular a pesquisa sobre memória, patrimônio, identidade, cultura alimentar, patrimônio sensível, artes, museologia, políticas culturais e história latino-americana. Precisa ser, ao mesmo tempo, laboratório e praça pública, investigação e convivência, rigor e imaginação. Precisa formar gente que saiba interpretar o país, mas que também saiba sentir o país. Porque a antropologia nos ensina que sociedades não se transformam apenas por diagnósticos técnicos, mas por mudanças de visão de mundo, por deslocamentos afetivos, por novas formas de pertencimento. Uma instituição só se torna necessária se for capaz de incidir na vida concreta das pessoas. É isso que buscamos agora.

Como pós-doutor em antropologia social, e como alguém que teve o privilégio singular de conhecer Darcy Ribeiro ainda muito menino, sinto com nitidez o peso histórico desta tarefa. Não se trata apenas de administrar um equipamento cultural, mas de honrar um campo de forças intelectuais que moldaram o imaginário latino-americano. Estar à frente do Memorial é, ao mesmo tempo, herança e responsabilidade. É continuar um diálogo iniciado por Darcy e Niemeyer, mas escrito agora com novas mãos, novos olhares, novos povos que chegam, novos autores que se somam a este território simbólico.

Darcy Ribeiro dizia que “não há fracasso na luta pela educação, há apenas adversários à altura de nossa teimosia”. E talvez seja esse o espírito que deve acompanhar a Fundação Memorial da América Latina no ano que começa. Abraçar de peito aberto o legado de Darcy significa aceitar que um projeto cultural não é um adorno, mas uma responsabilidade civilizatória. Significa reafirmar que cultura é assunto de Estado e que memória é um território político no qual se decide que país queremos ser. Significa também reconhecer que a América Latina não é um apêndice geográfico, mas uma comunidade de destino que compartilha feridas, esperanças, ritmos e linguagens. Uma comunidade que ainda precisa aprender a se olhar como família intelectual, cultural e espiritual.

O ano que começa nos convida a isso: a restaurar vínculos, rever prioridades, ouvir vozes silenciadas, fortalecer parcerias e assumir com seriedade aquilo que o Memorial da América Latina pode e deve oferecer ao país. Se 2025 foi o ano do reencontro, 2026 precisa ser o ano da afirmação. Um ano em que a utopia não apenas levante da cadeira, mas caminhe entre nós com passos firmes, encontrando olhos que a reconheçam e mãos que a ajudem a se cumprir. É nesse horizonte que o Memorial se coloca: com humildade diante do tamanho da tarefa, com coragem diante dos desafios do tempo e com a alegria profunda de participar, ainda que modestamente, da escrita de um Brasil mais justo, mais culto, mais latino-americano e mais fiel às esperanças que nos trouxeram até aqui.