TEATRO

Foto: William Aguiar

 

Bibi Ferreira: memória viva, inspiração eterna

Entre bastidores e aplausos, a trajetória da atriz brasileira ganha novo capítulo com o projeto de criação de um museu em sua homenagem

Por André Duarte

Bastidores: Antes das cortinas. Terceiro sinal.
É assim que o público aguarda, ansioso, o instante em que as luzes se acenderão e revelarão o motivo de estarem ali. Imersos naquele ambiente que recria a Lisboa do passado, todos esperam o momento exato em que apenas uma mulher poderia entrar em cena para dar vida à contemporânea Amália Rodrigues.

Bibi Ferreira, a mestra dos palcos, surge vestida como a fadista, vestida com um figurino que parece carregar memórias. Envolta aos aplausos calorosos, ela respira fundo e solta sua voz marcante, a mesma que atravessou gerações. A cada nota, percebe-se que a vida de Amália é contada ali de forma tão visceral que só décadas de ofício sob os holofotes poderiam traduzir. É o domínio absoluto da arte, conquistado ao longo de sessenta anos de carreira.

Na plateia, sua filha, Thina Ferreira, observa cada gesto da mãe. Ela recorda, até hoje, que aquele foi o trabalho que mais a impressionou. Dentre tantos clássicos, das comédias aos grandes musicais, ver Bibi transformar-se em Amália foi testemunhar algo novo e íntimo, uma revelação de artista para público e para si mesma. 

Escrito e dirigido por um amigo íntimo de Amália, o espetáculo concretizava um desejo antigo da própria fadista: se sua história um dia ganhasse os palcos, deveria ser pelas mãos da diva brasileira. Desejo realizado e eternizado. Bibi fez de Amália um símbolo novamente vivo, com o mesmo poder que transformou cada personagem em memória coletiva. Nos bastidores e sob as luzes, sua presença já anunciava o que todos sabiam: quando Bibi Ferreira entra em cena, a vida se torna espetáculo.

Primeiro Ato – O brilho que transformou a história do teatro
Multi-artista desde a infância, Bibi Ferreira, nascida em junho de 1922, cresceu entre palcos e os bastidores. Filha de Procópio Ferreira e Aída Izquierdo, também artistas revolucionários, Bibi esteve sempre cercada de arte e do brilho da fama, fato que resultou em sua estreia nos palcos ainda com dias de vida. 

Sua formação artística foi intensa e diversa. De canto ao sapateado e flamenco, a filha de artistas acabou sendo preparada para tudo. Ainda que sonhasse em ser pianista concertista, ela mudou sua direção quando se apaixonou pelo gênero teatral dos musicais. E na arte de interpretar, Bibi se reinventava em cada papel, dialogando com públicos e épocas distintas e atravessando fronteiras com naturalidade. 

Em espetáculos como My Fair Lady, Hello Dolly, Gota D’Água e Piaf – A Vida de uma Estrela, ela foi capaz de levar a cada personagem uma nova forma de contar a sua história. Encantando o público e a crítica, Bibi se tornou grande referência para seus sucessores pela maneira como conseguia transformar tudo em que tocava em algo memorável e único.

A atriz ainda marcou presença também na televisão e no cinema internacional, mas os caminhos logo a colocaram de volta aos palcos. Precisando retomar o foco de sua carreira no Brasil após gravar O fim do Rio para cuidar de seu pai, Bibi chegou a abandonar alguns contratos que já havia fechado para filmes internacionais. “Tudo que ela ia fazer no cinema internacional acabou sendo feito por Audrey Hepburn, por conta dessa interrupção forçada”, conta Thina.

Mas os palcos conseguiram fazer com que os voos da grande diva Bibi Ferreira não fossem somente em terras nacionais, alcançando destaque com trabalhos em Portugal, Argentina e Estados Unidos. Mesmo vencido diversos prêmios Molière e Sharp, eram os aplausos e o contato direto com o público que lhe davam força para projetar sua voz até a última fileira de cada teatro em que se apresentava. Uma lição que passou adiante para todos que buscavam seu conselho.

Bibi em Gota d’água | Foto: Divulgação

Segundo Ato – Thina Ferreira, a herdeira da paixão teatral
Acompanhando sua mãe ainda quando criança em Portugal, Thina teve seus primeiros anos de vida na Europa, mas logo voltou ao Brasil para morar com sua avó. Foi mais ou menos nesse período que começou a perceber que sua mãe era mais do que “mamãe”. Entre férias e finais de semana no Rio, ela começou a entender a dimensão de quem era Bibi Ferreira, não apenas para ela, mas para o país inteiro. “Desde pequena eu me lembro das pessoas dizendo: ‘A Bibi Ferreira, a maior atriz desse país’. Mas, ao mesmo tempo, eu ouvia: ‘A atriz Bibi Ferreira, que por acaso também é minha mãe?”, lembra Thina, com orgulho e assombro.

Ela não viveu os primeiros grandes momentos nas comédias e no teatro de revista, histórias essas de sua mãe que ouvia e via refletidas nos prêmios e objetos espalhados pela casa. O contato com o acervo começou a preencher essas lacunas. Entre caixas guardadas ao longo dos anos, Thina encontrou tesouros: fotografias de bastidores, recortes de jornais, partituras manuscritas, figurinos de época. Itens que, mesmo que colocados de lado com o tempo, ainda possuíam a mesma relevância da época em que foram guardados, mas agora, vistos de outra maneira. “Muita coisa estava lá, esquecida, e eu comecei a mexer. Nessa época, mamãe ainda estava viva, e isso me permitiu ter conversas que nunca imaginei que teria”, conta.

Quando a atriz faleceu em fevereiro de 2019, a busca de Thina se intensificou e ampliou ainda mais esse mergulho no legado de sua mãe. Entre partituras inéditas e objetos guardados, ela percebeu que o acervo contava uma história maior do que imaginava. Em cada nova descoberta por meio de tantas caixas, ela revia a mãe e descortinava novas facetas de Bibi. A grande artista que o Brasil conhecia era monumental; a Bibi que Thina redescobria era humana, multifacetada e ainda mais surpreendente.

Terceiro Ato – Tesouros de palco e alma
A proposta de transformar o acervo pessoal em museu veio de Leonardo Góes, atual presidente do Instituto Bibi Ferreira. Oficializado neste ano e idealizado pela própria Thina,o Instituto tem como objetivo preservar e difundir o legado de Bibi, assumindo a responsabilidade de encontrar um destino digno para toda a memória construída ao longo de seus anos nos palcos. O primeiro passo foi garantir, portanto, o acolhimento e preservação do seu acervo. Faltava apenas o endereço ideal para isso. Foi aí que o Memorial da América Latina, símbolo de resistência cultural, abriu suas portas, garantindo o cuidado do tão rico material. O segundo passo, e mais importante, é conseguir abrir em 2026, também no Memorial, o Museu Bibi Ferreira.

A ligação com o espaço vai além da geografia. Bibi foi uma artista sem fronteiras, que levou sua arte para outros países da América Latina. Fluente em espanhol, apresentou-se em Buenos Aires com o espetáculo Tangos, ao lado do pianista Miguel Proença. A repercussão foi imediata e inesquecível. “O argentino deveria assistir para aprender a saber como se canta tango de verdade”, recorda Thina, citando uma manchete da época, ainda com o mesmo brilho nos olhos.

O futuro Museu Bibi Ferreira não pretende ser uma vitrine silenciosa. É pensado como uma experiência viva, múltipla, à altura da própria artista. Entre as exposições fixas e as salas imersivas, o público encontrará figurinos meticulosamente recriados, além de objetos originais, suas amadas aquarelas e até a cadeira usada em Piaf. O percurso se transforma em um túnel do tempo de projeções, levando o visitante da fase final da carreira aos primeiros passos de Bibi, numa jornada emocional e sensorial. “Quem conheceu mamãe vai se emocionar. E quem não a conheceu, vai sentir quem ela foi”, resume Thina.

A expectativa é que o museu também funcione como centro de aprendizado e pesquisa. Arquivos, partituras, textos e figurinos estarão disponíveis para consulta, transformando o espaço em uma escola viva para novas gerações de artistas. “Se alguém quiser montar uma peça que ela dirigiu, o material está ali. Mamãe vai continuar ensinando”, afirma Thina.

A preocupação de Bibi com o esquecimento, confessada em idade avançada, ressoa intensamente: “Quando eu morrer as pessoas vão me esquecer”. Mas Thina, com convicção e amor, assegura que isso jamais ocorrerá: “Assim não vão. Eu não vou deixar que isso aconteça”. As caixas que outrora guardavam segredos, agora revelam uma vida inteira de talento, disciplina e ousadia, como se Bibi ainda estivesse ensinando cada um que a ela chega.