COLUNA

João Carlos Corrêa
Diretor Cultural e Chefe de Gabinete da Presidência da Fundação Memorial da América Latina
Especialista em Gestão Cultural e Indústria Criativa (PUC-RJ); Jornalismo Cultural e de Entretenimento (Belas Artes-SP); e mestrando em Gestão e Políticas Públicas (IDP-SP)
A mão que alfabetiza e a mão que acolhe
O legado de Bibi Ferreira no Memorial da América Latina
Sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Tenho pensado e discutido muito sobre a questão do valor simbólico do Memorial da América Latina e seus desafios para sustentabilidade e reconhecimento, com reflexões que vão além do que pode ser medido pelas cifras. Não deixo de fora dessas discussões a importante percepção da identidade latino americana e a memória dos povos originários. São temas, entre tantos, que têm me encantado e que merecem um cuidado e aprofundamento maior no entendimento de nossos processos contributivos na gestão da Fundação Memorial da América Latina.
Sem deixar de falar sobre identidade e memória, esta semana em especial quero emprestar um outro olhar a uma de nossas ações que cala fundo no peito deste sessentão que, de repente, se viu como um menino de 6 anos novamente.
Há cerca de um ano, diretamente de um verdadeiro túnel do tempo, recebi um presente que é símbolo de um legado. Das mãos de Tina Ferreira, filha da eterna Bibi Ferreira, a grande dama do teatro e da TV brasileira, chegaram até mim um quimono e um chapéu. Não são peças quaisquer. São as mesmas vestes que Bibi usou quando foi ao Japão, nos anos 70, receber uma homenagem por sua contribuição pioneira à educação brasileira à frente de um Curso de Alfabetização para Adultos pela televisão.
A emoção chegou forte. Ela não sabia, mas aquele presente era memória pura, materialização de uma jornada que começou atrás de uma tela de TV, na extinta TV TUPI, no final dos anos 60, bem antes de eu pisar em uma sala de aula, pois mal tinha completado meus 6 anos de idade.
Filho do seu Luís e da dona Celeste, que priorizaram os estudos dos quatro filhos acima de tudo, eu era uma criança retraída. O mundo das letras não existia para mim até então. Magicamente, a TV me tomou a atenção, pois uma mão aparecia atrás de um quadro translúcido, comandada pela voz de Bibi Ferreira, formando sílabas e palavras, em um quadro de seu programa. Era um jogo. Era encantamento. Era, sem que eu soubesse, a alfabetização chegando até a sala da minha casa, de forma gratuita e democrática.
Joguei o jogo e fui uma das milhares de crianças, jovens e adultos beneficiadas por aquela mão amiga. Quando entrei na escola em 1971, aos 7 anos, para surpresa geral, já estava alfabetizado, raro em uma época em que nem se sonhava com a possibilidade de uma pré-escola.
Depois, a vida seguiu para mim e eu só tive noção do fenômeno do qual tinha participado após muitos anos. O sucesso do programa foi tamanho que Bibi foi reconhecida, nesse mesmo ano, referência global em educação pela televisão.
E eis onde o destino tece uma figura mais que bela! Hoje, como gestor cultural no Memorial da América Latina, tenho a honra de participar do acolhimento do espetacular acervo de Bibi Ferreira nesta instituição. E qual é o símbolo maior do Memorial? A imponente escultura Mão, concebida por Oscar Niemeyer, que sangra em representação à luta e à cultura latino-americana.
Não é uma coincidência. É poesia. São ciclos que se fecham com perfeição.
A mão que, no passado, me guiou com paciência e gentileza pelos caminhos do alfabeto, hoje encontra guarida nos cuidados de uma instituição que tem outra mão como seu símbolo maior. A mão que me ajudou a escrever as primeiras letras da minha história encontra a mão que simboliza a identidade de um povo, da história que hoje ajudo a preservar. A mão pedagógica de Bibi e a mão simbólica de Niemeyer se encontram no Memorial, dialogando sobre educação, cultura, acesso e democratização do conhecimento.
Acolher o acervo de Bibi Ferreira aqui, significa honrar a memória de uma artista completa que usou seu talento para educar um país. É lembrar que a cultura é a ferramenta mais poderosa de transformação social.
A minha história pessoal se encontra nesse contexto. De menino encantado diante da TV, intrigado com a magia de uma mão escrevendo no ar, que gentilmente nos ensinava as primeiras letras do nosso alfabeto ao comando de Bibi, a gestor cultural de um dos equipamentos públicos mais icônicos do país.
Minha eterna gratidão a Bibi Ferreira e à sensibilidade de Tina Ferreira, que percebeu o valor dessa memória compartilhada.
O legado de Bibi está em boas mãos. E, sim, a metáfora é intencional.