COLUNA
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Por Pedro Machado Mastrobuono

Presidente da Fundação Memorial da América Latina

Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro

pedro.mastrobuono@memorial.org.br

Rádio, memória e integração na América Latina

Há experiências da infância que não se apagam porque não pertencem apenas ao campo da lembrança, mas ao da formação. Elas permanecem não como nostalgia, mas como estrutura. No meu caso, uma dessas experiências está ligada ao som de uma língua que eu não compreendia, mas que me acompanhava com uma naturalidade absoluta: o quéchua.

Durante os anos em que vivi no Peru, ainda muito jovem, havia algo que, à época, me parecia comum, mas que hoje revela uma densidade cultural extraordinária. Minha família havia se mudado para o Peru após o período em que meu pai foi ministro no governo João Goulart, retornando mais tarde ao Brasil já na condição de anistiado político.

Naquele momento, em Lima, eu vivia uma experiência que só mais tarde compreenderia em sua profundidade. Os funcionários da casa onde morávamos não eram vinculados à família, mas à própria residência. Falavam entre si em quéchua, uma língua que atravessa países, histórias e geografias. E o rádio que ecoava naquele ambiente não vinha necessariamente de Lima. Muitas vezes, o sinal atravessava fronteiras e chegava do Equador, de Quito, como se a América Latina se reconhecesse mais por suas vozes do que por seus mapas.

Ali, talvez sem perceber, eu vivia uma experiência fundamental: a de que a cultura não se organiza segundo as fronteiras que os Estados modernos desenham. Ela circula por outros caminhos. E, durante muito tempo, poucos meios foram tão eficazes nessa circulação quanto o rádio.

Foi também naquele período, em Lima, que tive a oportunidade de conviver com Darcy Ribeiro, que havia igualmente sido ministro no governo João Goulart e frequentava nossa casa. Sua presença marcava não apenas pela intensidade intelectual, mas pela clareza com que enxergava a América Latina como um projeto histórico e civilizatório. Era impressionante a dimensão de sua visão, sempre atravessada pela convicção de que a nossa latinidade não era uma fragilidade, mas uma força civilizatória profunda, capaz de articular culturas, línguas e experiências em um horizonte comum de pertencimento.

O anúncio recente do encerramento das atividades da Rádio Eldorado, após décadas de presença no ar, não é apenas o fim de uma emissora. É também um sinal de transformação mais ampla nos modos de comunicação. Durante grande parte do século XX, o rádio foi um dos principais instrumentos de integração no continente latino-americano. Mais acessível que a televisão, mais próximo do cotidiano, mais adaptável às realidades locais, ele levou informação, música, língua e identidade a regiões onde outros meios não chegavam.

Em muitos casos, era por meio dele que comunidades inteiras tinham acesso à sua própria cultura. Línguas indígenas, tradições orais, narrativas locais encontravam no rádio um espaço de circulação que não dependia de grandes estruturas. Havia, ali, uma dimensão profundamente democrática, ainda que imperfeita, porque o acesso não estava condicionado à alfabetização plena nem a recursos tecnológicos complexos. A América Latina se escutava pelo rádio.

Esse papel, no entanto, começou a se transformar com o avanço de outros meios. A televisão, ainda que inicialmente restrita a parcelas mais privilegiadas, passou a ocupar um espaço central. E, mais recentemente, o ambiente digital reorganizou de forma radical as formas de comunicação, produção e circulação de conteúdo.

Hoje, a integração do continente se dá por outras vias. Plataformas digitais, redes sociais, serviços de streaming e comunicação instantânea criaram uma nova lógica de conexão. A informação circula com uma velocidade incomparável. As fronteiras tornaram-se, em muitos aspectos, ainda mais permeáveis. Mas essa transformação não é neutra.

Se, por um lado, o digital ampliou o acesso e diversificou as vozes, por outro, ele introduziu uma lógica de fragmentação e de dispersão que altera a própria experiência da escuta. O rádio exigia permanência. Havia uma continuidade, uma linearidade, uma convivência com o tempo. No ambiente digital, a experiência tende a ser mais interrompida, mais seletiva, mais orientada por algoritmos.

A escuta se transforma. E, com ela, transforma-se também a forma como o continente se reconhece. Isso não significa que o rádio desapareceu. Ele se adaptou. Migrou para o digital, assumiu novos formatos, incorporou outras linguagens. Mas o lugar simbólico que ocupava já não é o mesmo. A centralidade deu lugar à coexistência.

Talvez o ponto mais importante não esteja em lamentar essa transformação, mas em compreendê-la. Porque, ao olhar para trás, para aquela infância atravessada por vozes em quéchua vindas de outro país, torna-se evidente que o que estava em jogo não era apenas um meio de comunicação. Era uma forma de relação. Uma maneira de estar no mundo em que a escuta não era apenas consumo, mas experiência compartilhada.

Hoje, a América Latina continua a se integrar. Talvez até mais do que antes. Mas o faz de outra maneira. Menos pela escuta contínua e mais pela conexão instantânea. Menos pelo fluxo comum e mais pela multiplicidade de vozes. Menos pela permanência e mais pela circulação.

Isso não é necessariamente uma perda. Mas é, sem dúvida, uma mudança. E toda mudança dessa natureza exige reflexão. Porque, no limite, a questão não é apenas como nos comunicamos, mas como nos reconhecemos.

E talvez o desafio contemporâneo seja este: preservar, em meio à velocidade e à fragmentação, aquilo que fazia da comunicação algo mais do que transmissão. Fazia dela um vínculo. Uma voz que atravessa fronteiras. E que, mesmo sem que compreendêssemos plenamente suas palavras, nos ensinava que pertencíamos a algo maior do que nós mesmos.