COLUNA

Por Pedro Machado Mastrobuono
Presidente da Fundação Memorial da América Latina
Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro
Entre Volpi, Dumont e Darcy: força civilizatória e patrimônio cultural de um Brasil possível
Há momentos em que o Brasil não precisa ser explicado. Ele precisa ser ouvido. Talvez por isso eu tenha imaginado, diante dessa imagem, uma conversa improvável. Não uma fantasia, mas uma forma de escuta. Como se três vozes fundamentais da nossa formação civilizatória se encontrassem não no passado, mas no presente, convocadas pela urgência de um país que ainda não se reconheceu por inteiro.
De um lado, Alfredo Volpi, com suas fachadas e bandeirinhas, não como ornamento, mas como gramática visual do povo. Sua pintura nunca foi ingênua. Foi rigorosa naquilo que poucos perceberam. Volpi organizou o Brasil em cor, ritmo e repetição, como quem compreende que a cultura popular não é resíduo, mas estrutura.
Volpi, com sua acuidade visual, pintou as harmonias cromáticas das luzes tropicais como nenhum europeu jamais teria coragem de pintar. Havia ali uma ousadia silenciosa, quase ética, de quem não precisava referenciar centros externos para legitimar sua linguagem. Era, ao mesmo tempo, um homem profundamente religioso e radicalmente anticlerical. Estudava a vida dos santos não como devoção, mas como investigação de padrões morais, como se buscasse compreender a ética encarnada na experiência humana.
Lembro-me de uma cena que nunca me deixou. Eu ainda adolescente, em seu ateliê, observava duas cabeças posicionadas sobre um armário, obras do escultor Bruno Giorgi, uma em bronze, outra em terracota. Ambas representavam o próprio Volpi mais jovem. Ele se aproximou com seu jeito simples e perguntou: “sabe quem é?”. Eu respondi, claro, é você, Volpi. Ele sorriu e disse: “ainda parece”. Riu com uma leveza desarmante.
De repente, sem transição, ele me perguntou: “você acredita em D’us?” Eu disse, acredito. Ele então perguntou: “você acredita que você é bom?”. Hesitei. Disse que achava que sim. Foi quando ele fez uma afirmação que me atravessa até hoje: “você é um comerciante!”. Eu não entendi. Ele continuou: “você pratica o bem aqui para receber pagamento depois, na outra vida. Quero ver você ser bom sem acreditar em nada, ser bom por ser bom.”
Ali, naquela simplicidade radical, estava condensada uma das formulações mais exigentes de espiritualidade que já encontrei. Não uma moral de recompensa, mas uma ética da própria existência.
Ao centro, Santos Dumont, suspenso entre céu e invenção, lembrando que a técnica, quando nasce de um impulso humanista, não separa o homem do mundo, mas o reinsere nele. Dumont não inventou apenas uma máquina. Ele inventou uma ética do voo, onde a inteligência serve à liberdade, e não ao domínio.
Já Santos Dumont carregava uma brasilidade afirmativa, quase pedagógica. Quando se tornou célebre na França e muitos buscavam associá-lo à sua ascendência europeia, ele passou a assinar seu nome com um sinal de igualdade entre Santos e Dumont, como quem afirma que sua identidade brasileira não era secundária, mas constitutiva. Era um gesto simbólico, mas profundamente político e de uma enorme brasilidade.
Dumont ensinou ao Brasil e ao mundo que a imaginação, quando aliada à perseverança, desloca limites. Seu voo não foi apenas técnico, foi civilizatório. Ele nos mostrou que não há fronteira definitiva quando o engenho humano se reintegra a um sentido ético. Não é demasiado relembrar que Santos Dumont jamais patenteou quaisquer de suas invenções. Ao contrário, as distribuía para os jornais científicos, para que fossem publicadas e permanecessem de livre acesso a todos.
E, em posição de escuta ativa, Darcy Ribeiro, talvez o maior intérprete do Brasil como projeto inacabado. Darcy nunca descreveu o país como ele é, mas como ele pode ser. Um Brasil que não teme sua mestiçagem, que não esconde suas contradições e que, justamente por isso, carrega uma potência civilizatória singular.
Talvez ninguém tenha amado o Brasil com a intensidade intelectual e afetiva de Darcy Ribeiro. Ele estudou o povo brasileiro não como objeto, mas como destino. Compreendeu que nossa pluralidade não era fragilidade, mas força civilizatória. Foi responsável por revoluções profundas no campo educacional, como a criação dos CIEPs, os Centros Integrados de Educação Pública, que pensavam a educação de forma integral, articulando conhecimento, cultura e dignidade.
Criou a Universidade de Brasília, como espaço de pensamento avançado e autonomia intelectual, e foi também responsável pela concepção do Memorial da América Latina, esse território simbólico onde a cultura, a política e a reflexão se encontram. Um projeto que hoje se desdobra em vocação acadêmica, reconhecido como cátedra da UNESCO, reafirmando a centralidade do pensamento latino-americano no mundo. Homem de uma profunda eloquência, que tive o privilégio de conhecer ainda muito jovem, quando minha família residia em Lima, no Peru. Ele e meu pai haviam sido ministros no governo do presidente João Goulart e se visitavam no exílio. Foi então que, nesse exercício de imaginação, algo se organizou como diálogo.
Volpi, com a serenidade de quem construiu uma linguagem própria, parecia dizer que o Brasil já existe, mas não foi ainda plenamente visto. Que suas cores estão aí, mas que nos falta educar o olhar. Que há uma estética da permanência nas coisas simples, e que a cultura popular, quando levada a sério, revela uma sofisticação que desafia qualquer hierarquia.
Dumont, por sua vez, não falava de máquinas. Falava de responsabilidade. Lembrava que toda invenção carrega uma escolha moral. Que o voo poderia ter sido apenas instrumento de guerra, mas nasceu também como sonho de aproximação entre povos. E que talvez o maior risco do nosso tempo seja dissociar inteligência de ética.
Darcy escutava e, como lhe era próprio, articulava. Dizia que o Brasil é uma construção histórica profundamente marcada por violência, mas também por encontros. Que somos um povo novo, não por falta de passado, mas por excesso de camadas. E que a nossa tarefa nunca foi repetir modelos, mas inventar caminhos. Nesse ponto, a conversa já não era deles. Era nossa.
Porque o que está em jogo não é apenas memória, mas projeto. Não é apenas patrimônio, mas pertencimento. O Brasil que emerge dessa tríade não é um país idealizado. É um país possível. Um país que se constrói quando arte, ciência e educação deixam de operar como campos isolados e passam a se reconhecer como dimensões de uma mesma experiência civilizatória.
Volpi nos ensina a ver.
Dumont nos ensina a imaginar.
Darcy nos ensina a compreender.
E talvez seja justamente nessa convergência que reside a força que ainda não conseguimos mobilizar plenamente. Um país que educa o olhar, orienta a técnica e interpreta a si mesmo não precisa importar identidade. Ele a produz.
Mas há um silêncio que atravessa essa conversa. Não o silêncio da ausência, mas o daquilo que ainda não fomos capazes de realizar. Porque reconhecer essas vozes exige mais do que admiração. Exige responsabilidade histórica. Exige política pública que compreenda a cultura como fundamento, a ciência como instrumento de emancipação e a educação como eixo estruturante da sociedade.
O que essas três figuras nos dizem, cada uma à sua maneira, é que o Brasil não fracassou. Ele foi interrompido. E tudo aquilo que foi interrompido pode ser retomado, desde que haja coragem de escuta.
Talvez o Memorial da América Latina exista exatamente para isso. Não como espaço de celebração nostálgica, mas como território de articulação. Um lugar onde a memória não paralisa, mas impulsiona. Onde a cultura não é decorativa, mas constitutiva.
Ao final dessa conversa imaginada, não há síntese. Há convocação. O Brasil possível não está no futuro distante. Ele está inscrito nas nossas próprias referências, esperando ser reconhecido, reorganizado e, sobretudo, assumido. A pergunta que permanece não é o que nos falta. É o que ainda nos impede de escutar.

