Um tesouro secreto guardado no Memorial

Biblioteca especializada na América Latina e no Caribe tem rico acervo, que inclue as coleções Brasiliana e Ayacucho e um fac-símile do espetacular Códice Borbónico de origem asteca

Detalhe do famoso Códice Borbónico, cujo raro facsímile em tamanho integral faz parte do acervo da biblioteca do Memorial

 

Inaugurada em 18 de março de 1989, a biblioteca do Memorial tem por objetivo, nas palavras de Darcy Ribeiro, seu criador, “reunir para livre consulta pública obras fundamentais da literatura, da História, Ciências e Artes dos países latino-americanos”. Até hoje ela coloca à disposição do público em geral, e particularmente de pesquisadores, informações sobre o que de melhor se produz culturalmente na América Latina e sobre a região.

O Centro Brasileiro de Estudos da América Latina é o responsável pela Biblioteca Latino-Americana. A Bibla, como ela é chamada, tem um destacado acervo de obras sobre a América Latina nos campos das Ciências Sociais, Economia, História, Cultura Popular, Artes e Literatura Latino-americanas. Fazem parte da Bibla importantes coleções como a Ayacucho, a Mapfre, a Documentos Brasileiros, e a Brasiliana. No total, são mais de 42 mil volumes, incluindo obras raras e especiais. Dessas, 37 estão registradas na Biblioteca Nacional devido ao seu alto valor histórico e cultural.

Clique aqui para pesquisar no catálogo online da biblioteca do Memorial. Os livros com o sinal de arroba (@) à direita da ficha técnica podem ser baixado gratuitamente. Os demais devem ser consultados fisicamente na biblioteca.

No que diz respeito à brasiliana, Darcy Ribeiro entrou em contato com colecionadores e livreiros importantes, principalmente do Rio de Janeiro, com o intuito de obter uma “relação das principais coleções de obras sobre o Brasil”. Em correspondência disponível na Fundação Darcy Ribeiro, em Brasília, ele chega a listar algumas obras sugeridas, como As falas do Trono, as Mensagens Presidenciais, a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e as Coleções Brasilianas da editoras Companhia Editora Nacional, José Olympio, Martins e Itatiaia.

Um trabalho notável que a equipe da biblioteca latino-americana desenvolve é a identificação e catalogação especial de obras raras para consolidação do “acervo especial”. A Bibla usa como referência principalmente o catálogo de obras raras da Biblioteca Nacional, a Biblioteca Mário de Andrade, a Brasiliana Mindlin, e as bibliotecas do IEB, do Museu Republicano, da Faculdade de Direito da USP, da Unicamp e da PUC-SP.

Muitas vezes o bibliotecário responsável por esse trabalho de detetive se depara com um livro que por si só não seria considerado uma obra especial, mas observando anotações, assinaturas e ex-libris que indiquem que “aquele exemplar pertenceu a um conjunto bibliográfico de personalidades famosas e/ou importantes”, dotando-a de uma aura, o que faz dela uma obra preciosa, digna de entrar no acervo especial da nossa Bibla.

 

Calendário ritual que registra o ano religioso, usado com fins divinatórios, pelos povos mesoamericanos muito antes da chegada dos europeus

 

 

Quando se trata de livros estrangeiros, principalmente de outros países latino-americanos, o processo é o mesmo, só que feito nos acervos especiais das bibliotecas nacionais do país a que pertence ou foi editado o livro. Para tanto, são feitas pesquisas no site da LANIC – Latin America Network Information Center, um dos mais completos portais sobre América Latina, que reúne as mais importantes Bibliotecas, Arquivos e Centros de Documentação dos países latino-americanos. Consulta-se também o site http://livroraro.com/, da loja nova-iorquina Richard C. Ramer Old & Rare Books, especializada em manuscritos e livros raros espanhóis, portugueses e latino-americanos.

Um destaque do acervo é o Códice Borbónico, um dos poucos documentos de origem asteca que chegou praticamente intacto aos dias atuais. A Bibla tem uma reprodução em tamanho natural, editada pela Siglo Veintiuno Editores (México, 1988. 5. ed.). O original – uma faixa em papel de amate (arbusto conhecido entre nós por cheflera) de quase 15 metros de comprimento por 40 centímetros de largura, sem emendas, dobrada como um biombo – encontra-se na biblioteca da Câmara de Deputados de Paris, o chamado Palácio Bourbon; daí o nome com que o Código se tornou conhecido.

Trata-se de um calendário ritual, um grande painel simbólico-pictórico que registra o ano religioso, usado com fins divinatórios. Não há consenso quanto à data de origem do documento. Alguns pesquisadores defendem se tratar de um documento produzido no período pré-hispânico (antes da chegada dos espanhóis à América Central, em 1519). Outros afirmam que o painel teria sido elaborado por um pintor asteca já no período colonial, para explicar aos frades espanhóis o funcionamento do antigo calendário, cuja origem remonta aos maias.