Pensando a América Latina e o Caribe

Concebido por Darcy Ribeiro, o CBEAL não só fomenta o conhecimento sobre o subcontinente, como espalha esse saber por meio de publicações físicas e digitais, entre elas, livros e a revista Nossa América/Nuestra América

O Centro Brasileiro de Estudos da América Latina lança editais de pesquisa e realiza simpósios, seminários, cursos e debates sobre a América Latina, entre outras atividades. Uma das iniciativas mais bem sucedida é a Cátedra UNESCO Memorial da América Latina, programa de estudos que integra uma rede de cátedras universitárias chamada UNITWIN. Todas elas têm em comum o fato de serem chanceladas e apoiadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a UNESCO.

No âmbito da parceria com a UNESCO, o Memorial lançou em 2020 o livro Línguas Ameríndias – Ontem, Hoje e Amanhã, com fotos de Renato Soares e textos de indígenas e pesquisadores. A ONU havia proclamado 2019 o Ano Internacional das Línguas Indígenas e a UNESCO apoiava iniciativas que denunciavam o risco de extinção de idiomas e se preocupavam em preservar, revitalizar e promover línguas indígenas. O Memorial então organizou uma exposição sobre o tema. O livro físico e digital (ele pode ser baixado do catálogo online da nossa biblioteca Latino-americana) é um desdobramento das palestras e seminários dessa iniciativa.

 

Interpretação comunitária

Em 2022 o Memorial publicou online o livro Tradução e interpretação comunitária,  que inaugurou o celo CBEAL Pesquisa. Ele foi resultado de um edital de pesquisa. Luciana Latarini Ginezi, então diretora do CBEAL, assim descreeu a iniciativa:

“Desde 2019, quando Jorge Damião assumiu a presidência da Fundação Memorial da América Latina, temos focado nossos trabalhos em oferta de bolsas de pesquisa, algo escasso em instituições públicas fora da Academia, em uma tentativa de fomentar pesquisas sobre as migrações, principalmente no território latino-americano, sem excluir os demais. Mas por que essa temática? Além do fato de imigrantes de várias procedências chegarem ao Brasil em fluxo crescente, sabemos que a língua é um dos maiores obstáculos para as pessoas que precisam buscar refúgio ou novas perspectivas de vida em outro país. Diante disso, planejamos uma linha de pesquisa que pudesse trazer à tona os enfrentamentos de solicitantes de refúgio quando chegam a um novo território, que passassem pela língua, mas também por desafios culturais, sociais e práticos do exercício da cidadania.”

Entre outros temas, a obra defende que a interpretação comunitária é um direito dos povos indígenas e que a tradução e a mediação transcultural combatem a invisibilização e a falta de representatividade dos primeiros habitantes do continente. Os autores discutiram a formação de tradutores e intérpretes comunitários, por meio de artigos tais como “Conectando redes e saberes: experiências de tradução com indígenas Warao refugiados no Nordeste do Brasil”, de Rita de Cássia Melo Santos, Angela Facundo Navia e Luis Guillermo Meza Álvarez; “A Mediação Cultural Avá-guarani: des-cobrindo a história e re-aprendendo o viver comum”, de Camila Cristina Lazzarini; e “A tradução para o espanhol da Cartilha de Direitos Trabalhistas e Previdenciários para Imigrantes e Refugiados”, de Barbara Zocal da Silva, Bruna Macedo de Oliveira, Heloísa Pezza Cintrão e Santiago Eduardo Ortiz Moreno. Destaque para o “Glossário Português–Kaingang – Termos encontrados no Museu da Flona de Canela (RS)”, de Guilherme Maffei Brandalise; e “Kreyòl pale, kreyòl konprann: Aspectos da gramática do crioulo haitiano – subsídio para a formação de intérpretes comunitários”, de Bruno Pinto Silva.

Ainda sobre os temas “mediação cultural” e “tradução comunitária”, a Cátedra Unesco Memorial da América abriu inscrições para o edital denominado “Movimentos da América Latina”, que também nomeou o livro digital que resultou dessas pesquisas, denominado Cadernos da Cátedra I. Foram selecionadas quatro pesquisadoras, sob a orientação da professora Luciana Carvalho Fonseca, da USP, cujas pesquisas versavam sobre tradutoras e editoras feministas e sobre o papel das línguas na garantia de direitos humanos na América Latina. As pesquisadoras ofereceram, ainda, oficinas e minicursos ligados aos seus respectivos projetos, bem como palestras. Daiane Pereira, por exemplo, fez uma palestra sobre a escritora hispano-paraguaia Josefina Plá. Flávia Kraus, por sua vez, apresentou uma oficina sobre as editoras cartoneras da América Latina. Além dessas atividades, dois minicursos tiveram grande repercussão: “formação de professores para acolhimento e integração de estudantes em situação de migração ou refúgio”, conduzido pela pesquisadora Carla Cursino; e “tradução humanitária e interpretação comunitária para migrantes e refugiados”, que partiu dos estudos da pesquisadora Aryadne Bittencourt. Houve mais de mil participantes nesses dois minicursos.

O segundo edital teve como orientadora a professora da Unicamp Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, cuja “atuação acadêmica se situa numa interface entre narrativa histórica, trajetórias de vida e a realização de documentários audiovisuais”. O livro Vidas em refúgio (segundo volume da série Cadernos da Cátedra, disponível no catálogo online da biblioteca Latino-americana) traz ensaios que apresentam e analisam narrativas históricas, trajetórias de vida e documentários, entre eles, “Narrar entre nós: as histórias de vida de mulheres refugiadas”, de Carolina Moura Klautau; “LGBTQI venezuelanos(as) em Boa Vista, Roraima: desafiando categorias e representações”, de  Caobe Lucas Rodrigues de Sousa; “Uma fotografia para habitar”,  Débora Klempous; “Una película para nosotros: pesquisa e criação fílmica com uma família venezuelana”, de  Marcos Vinicius Yoshisaki; “Movimentos, sabores e narrativas: produzindo imagens com deslocados da Síria em São Paulo”, de Natália Neme Carvalhosa; “Imagens indesejáveis: Água prateada, um autorretrato da Síria”, de  Mariana Teixeira Elias, entre outros.

O terceiro volume de Cadernos da Cátedra teve o título Cultura como facilitadora na integração de pessoas em situação de refúgio, fruto do edital de pesquisa orientado pela professora Elizabete Sanches Rocha. Ela inicia sua introdução ao livro da seguinte forma:

A pesquisa em tela, cujos resultados ora serão apresentados neste artigo, nasce de uma inquietação que me acompanha desde, pelo menos, 2002, quando passei a pesquisar com profundidade a invisibilidade que as práticas culturais – entendidas antropologicamente como a própria expressão do humano e de sua diversidade – têm no contexto dos debates da área de Relações Internacionais, de agora em diante apenas RI. Como pesquisadora catedrática da Fundação Memorial da América Latina, em 2022, pude explorar o assunto e estender sua compreensão, com a experiência de campo. Sobejamente dedicadas aos assuntos militares e bélicos, as RI não debatiam/debatem cultura em suas mais amplas possibilidades de entendimento e de abrangência conceitual; ao contrário: a cultura sequer era/é considerada como um aspecto relevante no jogo de interesses políticos que traça os caminhos analíticos e práticos dessa área do conhecimento.”

“As artes e seus papéis na transformação de conflitos no contexto das migrações”, de Paula Ditzel Facci; “Práticas culturais como potência de transformações pacíficas: vivências a partir do contexto migratório na fronteira Brasil-Venezuela”, de Julia Faria Camargo; “O poder da voz: relatos e poéticas Warao, em contexto de movência e refúgio”, de Lia Leite Santos; “A arte de se tornar visível: a política e a estética para a integração na perspectiva dos imigrantes e refugiados venezuelanos em Botucatu, São Paulo”, de João Gilberto Belvel Fernandes Júnior; “Desembaralhando os nós, as malhas e os vazios: pensando vivências migrantes em Joinville, SC pela mediação literária”, de Julio Cesar Vieira; e “A experiência etnopoética de Abya Yala: integração de indígenas e migrantes no Brasil”, de Brenda Marques Pena.

Em 2025 um dos editais de pesquisa do CBEAL resultou no livro América Latina Mulheres! Ciências, movimentos sociais e arte: caminhos em [re]construção, organizado pela professora Mirlene Fátima Simões. Ele está disponível na íntegra no catálogo online da nossa biblioteca Latino-americana. Na apresentação dessa obra, o presidente do Memorial, Pedro Mastrobuono, escreveu:

Quando a Comissão de Apoio à Pesquisa e Extensão (CAPE), do Memorial da América Latina, decidiu abrir chamada pública para pesquisadores sobre gênero e ciência, fiquei muito animado. Era o ano de 2023 e estava curioso para saber quais projetos receberíamos nas linhas de pesquisa “Relações de Gênero na história e na ciência na América Latina”, “Epistemologias feministas e decoloniais desde os trópicos”, “Participação feminina na inovação e tecnologia na América Latina” e “Impactos da maternidade e cuidados parentais nas carreiras de ciência e tecnologia”. Eram assuntos de extrema importância e atualidade. Para além da denúncia radical da opressão, os estudos deveriam pensar, analisar e oferecer sugestões para o encaminhamento de soluções de problemas práticos enfrentados pela mulher para aumentar sua participação nos vários campos do conhecimento, da ciência, da tecnologia e da inovação.”

Os artigos que compõem este livro são textos originais de nove pesquisadoras e um pesquisador cujos projetos responderam ao edital lançado pelo CBEAL. Todos eles investigam e revelam a resistência e a luta das mulheres, o pioneirismo e aspectos pouco conhecidos do protagonismo feminino em diversos campos do saber, dos movimentos sociais e das artes.

Neste ano (2026), o CBEAL lançou o livro eletrônico Educação na América Latina – Histórias, Movimentos e Proposições, que também pode ser baixado do catálogo online da nossa biblioteca Latino-americana. Na introdução dessa obra, o diretor do CBEAL, Roberto Bertani, escreveu o seguinte:

“O lançamento deste livro celebra um jeito de fomentar o conhecimento jamais experimentado pelo Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (CBEAL). Pela primeira vez, o Memorial da América Latina e a Universidade de São Paulo (USP) publicam os resultados de um curso sobre a América Latina de formato inteiramente novo – e, por que não dizer, revolucionário. Sim, para nós do Memorial é revolucionário saber que recepcionamos, apoiamos e ajudamos a organizar uma atividade direcionada aos alunos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) e da Faculdade de Educação (FE), ambos da USP. Atividade essa que, e aí está a revolução, também foi oferecida gratuitamente aos professores das redes públicas de ensino e aos interessados em pensar a Educação na América Latina como curso de extensão universitária.”

Este livro, portanto, é fruto de um curso da pós-graduação da USP ministrado no Memorial e aberto, não só aos pós-graduando, mas também a professores da rede pública e a interessados em geral. Essa se revelou uma fórmula bem sucedida, em que uma atividade acadêmica com rigor científico é oferecida a estudantes formais e ao interessado em geral, com destaque aos mestres de ensino.